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segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Crise no relacionamento entre EUA e Israel






















Como Israel coloca em risco o apoio dos EUA

O diálogo dos governos Netanyahu e Obama chegou a um novo ponto baixo. 
A longo prazo, a tendência é Washington abandonar a política de ajuda incondicional aos israelenses
Carta Capital
José Antonio Lima - 21.08.2014
Ninguém pode negar que o premier de Israel, Benjamin Netanyahu, é um líder autoconfiante. Segundo em tempo de permanência na lista de primeiros-ministros do país, atrás do histórico David Ben Gurion, Netanyahu comanda um Exército formidável, tem apoio significativo da classe política e viu sua popularidade explodir desde o início da ofensiva contra o Hamas na Faixa de Gaza, em 8 de julho (apesar de agora ela já ter despencado novamente). 
A autoconfiança de Netanyahu, entretanto, está colocando em risco aquele que é o ativo mais importante do país – a parceria com os Estados Unidos. A longo prazo, isso pode significar a redução de um apoio precioso no ambiente hostil em que Israel vive.
A relação entre Estados Unidos e Israel tem sido bastante atribulada desde que Barack Obama tomou posse, no início de 2009. O atual presidente dos EUA e Netanyahu tiveram diversos atritos, alguns públicos, em especial a respeito do estabelecimento do Estado palestino e do programa nuclear do Irã. Em 2012, quando Obama buscava a reeleição, Netanyahu não fez questão de esconder seu apoio a Mitt Romney, o candidato republicano.
Na atual ofensiva contra o Hamas, a relação entre Estados Unidos e Israel chegou a um novo ponto baixo. No fim de julho, o Departamento de Estado enviou o rascunho de um possível cessar-fogo com o Hamas para o governo israelense, com o objetivo de consulta. 
O documento, visto como favorável ao Hamas, indignou o gabinete de Netanyahu, que não apenas decidiu votar o rascunho, dando a ele um caráter oficial que não tinha, como vazou o conteúdo para a imprensa. A imagem de John Kerry, o secretário de Estado dos EUA, ficou arranhada, e fez o Departamento de Estado atestar publicamente que se tratava de um rascunho. 
Aos poucos, a diplomacia norte-americana saiu de cena e e foi substituída pela da Egito, também hostil ao Hamas, como defensora dos interesses de Israel nos diálogos com o grupo palestino.
No início do mês, as coisas pioraram, com um ríspido telefonema entre Netanyahu e Dan Shapiro, o embaixador dos EUA em Israel. Segundo relatos, em 2 de agosto Netanyahu disse a Shapiro para a administração Obama "jamais questioná-lo novamente". 
No dia seguinte, o Departamento de Estado condenou o "vergonhoso" ataque a uma escola da ONU na Faixa de Gaza, a mais recente das diversas (e raras até a atual operação) críticas norte-americanas à morte de civis palestinos. 
No último dia 14, surgiu em reportagem do Wall Street Journal o problema mais grave na relação bilateral: Israel estava solicitando munições diretamente ao Pentágono (o Departamento de Defesa dos EUA) sem pedir autorização para a Casa Branca ou o Departamento de Estado. 
A descoberta do contato direto fez a administração Obama paralisar a entrega de mísseis Hellfire para as Forças Armadas de Israel, uma notícia que chocou muitos israelenses.
A "relação especial" com os EUA é preciosa política e militarmente para Israel, e se provou decisiva diversas vezes nas últimas décadas. Diante disso, parece ser um contra-senso o governo israelense provocar a Casa Branca. Não na cabeça de Netanyahu. 
O primeiro-ministro de Israel vê Obama como um idealista ingênuo, que não entende o Oriente Médio da forma correta. Ele se dá ao luxo de flanquear Obama pois sabe que o atual mandatário norte-americano tem apenas mais dois anos de mandato. Enquanto isso, Netanyahu aposta no forte lobby pró-Israel que funciona no Congresso dos EUA. 
A estratégia pode parecer boa a curto prazo, mas tem potencial desastroso para o futuro de Israel.
EUA longe de Israel?
Estados Unidos e Israel são parceiros antigos. Além do lobby, a aliança tem outras três bases fortes – os interesses estratégicos comuns, os valores liberais compartilhados e a tradição judaico-cristã que une os dois povos. Mudanças demográficas, que vão demorar algum tempo para se estabelecer, mas que já estão em andamento, tendem a erodir esta relação especial entre as partes. 
Em artigo apresentado no Congresso da International Studies Association em Buenos Aires, na Argentina, no fim de julho, Ilai Saltszman, pesquisador da Claremont McKenna College, nos Estados Unidos, mostrou como isso pode ocorrer. A tradição judaico-cristã é a única que tende a se manter a longo prazo, enquanto o mesmo não é verdade para os outros três fatores citados acima.
Em primeiro lugar, Saltszman lembra que os interesses estratégicos dos Estados Unidos e de Israel estão, cada vez mais, percorrendo caminhos separados. 
Para os EUA, a existência no Oriente Médio de problemas mais urgentes que a questão palestina, como o Iraque; a decrescente dependência do petróleo, proporcionada pelo sucesso da exploração do gás de xisto em solo norte-americano; e o desejo de conter a China, o famoso "pivô para a Ásia" de Obama; têm feito Washington perder interesse no Oriente Médio como um todo e, em Israel, sua ponta-de-lança na região, em particular.
Em segundo lugar, há também uma importante mudança no perfil do lobby pró-Israel. Tradicionalmente estruturado como um grupo de pressão da direita beligerante israelense, o lobby tem um novo ator poderoso, o J-Street, criado por judeus-americanos pró-Israel, mas também pró-paz, postura contrastante com a do atual governo israelense. 
O J-Street apoiou abertamente a campanha de Obama e tem inúmeras divergências públicas com a direita israelense.
Por fim, o compartilhamento de valores liberais entre as sociedades também parece ameaçado. Enquanto os judeus norte-americanos se encontram entre os grupos demográficos mais progressistas do país, a sociedade israelense tem dado exemplos gritantes de fanatismo, político e religioso. 
Saltszman lembra que, na ala jovem-liberal da comunidade judaica dos EUA, que está em ascensão, o progressismo é ainda mais acentuado. Para este grupo, diz o pesquisador, as "políticas de Israel em relação aos palestinos constituem um teste decisivo crucial para a viabilidade e capacidade de resistência de seus alicerces morais e éticos". 
Tal postura dá legitimidade às críticas contra Israel, em especial porque, segundo uma pesquisa do instituto Pew feita em 2013, 89% dos judeus norte-americanos enxergam como compatíveis as condições de ser judeu e a de ter posições "fortemente críticas" a Israel.
Israel deve pensar no futuro
Outras mudanças na sociedade e na política norte-americanas podem prejudicar a relação especial entre os dois países. No fim de julho, o mesmo instituto Pew mostrou que 40% dos americanos culpavam o Hamas pelo conflito na Faixa de Gaza, enquanto 19% responsabilizavam Israel. 
Entre os maiores de 65 anos, a tendência melhorava para Israel (53% a 15%), mas caía para no grupo entre 18 e 29 anos (29% a 18%). O corte "racial" também mostrava dados importantes. Enquanto 47% dos brancos culpavam o Hamas pelo conflito e 15% responsabilizavam Israel, os negros se dividiam (25% a 27%) e os hispânicos atribuíam mais culpa a Israel (20% a 35%).
As críticas da sociedade ao governo israelense dialogam com a postura da imprensa norte-americana. Tradicionalmente favorável a Israel, representantes da mídia têm se sentido à vontade para criticar a ofensiva israelense. 
A operação atual é um marco, pois as críticas a Israel se tornaram, como se diz nos EUA, jogo limpo. Isso tem dificultado a tentativa de Israel de tornar consenso a sua versão do conflito: a de que essa é uma guerra de defesa, em nome do sofrimento de uma população que vive sob a ameaça constante dos foguetes do Hamas. 
Cada vez mais, ganha força a narrativa contrária, a de que o sofrimento maior é dos palestinos, em especial os da Faixa de Gaza, 1,8 milhão de pessoas que vivem sob um cerco de Israel e do Egito, em uma espécie de prisão a céu aberto, cujas vidas já miseráveis estão sendo destruídas pelos bombardeios e pela incursão terrestre israelense.
Mais um agravante demográfico para Israel é a perda de poder dos brancos evangélicos dentro do Partido Republicano. Este grupo é majoritária e ferrenhamente pró-Israel, por motivos religiosos inclusive, e está na base do lobby tradicional. 
Como mostrou recente reportagem do jornal The Washington Post, os evangélicos têm se sentido isolados politicamente no partido, diante do crescimento de ativistas libertários e da Tea Party, cujas prioridades se concentram em questões econômicas, não sociais. 
Se essa tendência interna do Partido Republicano continuar, os brancos evangélicos vão ver reduzido seu poder de eleger deputados e senadores, diminuindo a base suscetível ao lobby da direita israelense.
Todos esses fatores são, por enquanto, meramente indicativos de mudança. Israel é e vai continuar sendo um parceiro importante dos Estados Unidos, mas a longo prazo pode perder sua condição de aliado preferencial e o apoio incondicional do qual desfruta hoje. 
Se fosse um bom líder, Netanyahu transmitiria este diagnóstico a sua coalizão de extrema-direita e à sociedade israelense. Além disso, buscaria alterar as atitudes de seu governo de forma a torná-las mais palatáveis não apenas para quem já apoia o país. 
Em vez disso, Netanyahu transmite sua autoconfiança e empáfia ao Estado de Israel, e esquece que a existência do país, em segurança, está visceralmente calcada no apoio de Washington. 
Com apoio reduzido dos EUA, Israel pode ter de confrontar, enfraquecido, desafios até hoje inéditos, como o boicote internacional que vem sendo gestado por conta da questão palestina, cujo objetivo é transformar Israel em um pária internacional. 
Quanto mais cedo os israelenses acordarem para essa realidade, mais seguros estarão.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Israeli President Calls Rousseff to Apologize for Comments Made by Spokesman



MARIANA HAUBERT
12.ago.2014
The recently elected Israeli president, Reuven Rivlin, called President Rousseff on Monday (11) afternoon to apologize for comments made by Yigal Palmor, spokesman for the Israeli Ministry of Foreign Affairs, in response to Brazilian criticisms of Israel's recent Gaza offensive.
On July 17 and 23, Brazil released two statements criticizing Israeli military action in Gaza and expressing "solidarity" with the victims of the conflict "in Palestine and Israel."
In an angry response, Palmor labelled Brazil a "diplomatic dwarf".
He argued that the Brazilian position "shows why this economic and cultural giant remains politically irrelevant" and that Brazil had chosen "to be part of the problem, rather than contributing to a solution."
According to a note from the President's press team, Rivlin said that Palmor's statements "do not correspond to the feelings of the Israeli people in relation to Brazil."
In response, Rousseff referred to "the historic bonds that have united the two countries for decades", and reiterated the Brazilian support for peaceful coexistence between Israel and Palestine, as two economically sound, sovereign, and above all, safe countries.
Rivlin justified the military action in Gaza by referring to the rocket attacks on Israel by Hamas, the radical Islamist group that controls Gaza.
Rousseff said that "the Brazilian government condemns the attacks on Israel, but equally it condemns the disproportional use of force in Gaza."
Rousseff asked Rivlin to ensure that the current crisis may not be used as a pretext for racism, whether towards the Israelis or the Palestinians.
She also said she hopes that the ceasefire continues, and that negotiations between the two countries will bring peace to the region.
In the second statement released by the Ministry of Foreign Affairs, Brazil slammed the Israeli use of force as "disproportional", and summoned the Israeli ambassador in Brasília to give an explanation.
The Brazilian ambassador in Tel Aviv, Henrique Pinto, was also recalled.
This was not well received by Israel.
In response, it said it was "disappointed" with the recalling of the Brazilian ambassador, and said that the Brazilian position "does not reflect" the quality of relations between the two countries. It also accused Brazil of "ignoring Israel's right to self-defense".
"Israel expects the support of its allies in the fight against Hamas, a group recognized as a terrorist organization by many countries around the world," the statement added.
Palmor said in interviews that Israel's response was "perfectly proportional", and even mocked Brazil's recent humbling in the semifinal of the World Cup.
"This isn't football," he said. "When a match ends in a draw, you think it's proportional, but when it ends 7-1 then it's disproportional. But real life and international law aren't like this."

fonte: Folha

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Palestina e Israel: Resumo de uma história de conflitos

























O envolvimento das potências ocidentais no Oriente Médio data dos séculos XIX e XX, como parte do processo de Imperialismo da Rússia, do Reino Unido e da França.

O mapa local foi redesenhado várias vezes na história; mais recentemente, com a queda do Império Otomano após a 1a Guerra Mundial. 

A região da Palestina é palco de um dos mais complexos conflitos contemporâneos, com povos árabes e judeus protagonizando recorrentes batalhas.  

Para se entender melhor este conflito, é necessário resgatar alguns antecedentes históricos sobre a  Palestina e a criação do Estado de Israel. 

Palestina

Palestina é a denominação histórica dada pelo Império Romano, a partir de um nome hebraico bíblico, para a região do Oriente Médio situada entre a costa oriental do Mediterrâneo e as atuais fronteiras ocidentais do Iraque e da Arábia Saudita, hoje compondo os territórios da Jordânia, Israel, sul do Líbano e os territórios da Faixa de Gaza e a Cisjordânia. 

A Palestina, sendo um trecho estreito de terra favorável para a passagem entre a África e a Ásia, foi palco de inúmeras disputas por diferentes povos na história. 

No século XV a.C, a região foi conquistada pelos egípcios. Com o enfraquecimento do poder dos egípcios a partir do século XIII a.C, a região passou a ser invadida pelos "Povos dos Mares". 

Um desses povos, os Filisteus, fixou-se junto à costa da região, construindo vilarejos e cidades. Nesta mesma época, chegam também à região tribos de Hebreus, que se instalam mais ao interior. 

Filisteus e Hebreus entram em conflito pelo domínio das terras. As tribos hebraicas se unem para combater o inimigo, formando uma monarquia cujo primeiro rei é Saul. 

O sucessor de Saul, David, derrota os filisteus no século X a.C unificando a região, e fixa a capital de seu reinado em Jerusalém.  

Durante o reinado do sucessor de David, Salomão, o novo reino vive período de grandes prosperidade. Salomão constrói grandes monumentos e templos, como o "Templo Sagrado do Monte Moriá" e consolida Jerusalém como local sagrado e capital política e religiosa dos judeus.    

No entanto, com a morte de Salomão, a região é novamente dividida em duas partes: ao norte é criado o reino de Israel (com capital em Samaria) e ao sul é criado o reino de Judá (com capital em Jerusalém). 

A região novamente é palco de várias disputas nos séculos seguintes, sendo conquista por diferentes povos, como Assírios, Babilônicos, Persas e Gregos  até ser conquistada pelo Império Romano no ano de 63 a.C. 

Jerusalém que já era terra sagrada dos judeus, passa também a ser centro religioso da nova religião nascente, o Cristianismo.

Após a divisão do Império Romano, entre os séculos III e VI d.C a região passa por mais uma fase de prosperidade, sob o controle do Império Bizantino. 

O Império Bizantino era predominantemente cristão, e, durante os 3 séculos de seu controle sobre a Palestina, os judeus foram proibidos de viver na região. 

No ano de 638 d.C, o Califado Islâmico conquista a Palestina e Jerusalém passa a ser considerada uma das cidades sagradas do Islã. Nesta época tanto os judeus quanto os cristãos foram permitidos de viver na Palestina. 

Em 1099 os Cruzados conquistam a região e novamente os judeus são expulsos da Palestina, junto com os muçulmanos, permanecendo somente cristãos na região. 

Em 1517 a região foi conquistada pelo Império Turco Otomano e novamente tanto os muçulmanos quanto os judeus retornam para a Palestina. 

Em 1917 o Império Otomano, aliado da Alemanha na Primeira Guerra Mundial, é derrotado pelas tropas aliadas com o apoio dos árabes da região e os turcos são expulsos da Palestina.

A Grã-Bretanha, ainda durante a guerra, promete aos judeus a constituição de um Estado Judaico totalmente independente da Turquia, através da "Declaração de Balfour". 

Com a vitória dos aliados, conforme o Tratado de Versalhes, a Palestina é dividida entre a França e a Grã-Bretanha, cabendo à França a região das atuais Síria e Líbano e à Grã-Bretanha a região ao sul que corresponde à região da atual Jordânia, Faixa de Gaza e Cisjordânia. 

Com base no acordo "Sykes-Picot", foi criado o chamado "Mandato Britânico", que previa que esta região estaria sob controle Britânico, como uma administração internacional.

Em 1923, a Grã-Bretanha divide a região em dois distritos, separados pelo rio Jordão. 

Os judeus somente seriam permitidos na parte da costa a oeste do Jordão (correspondendo a 25% do Mandato Britânico). Os restantes 75% do território vieram a formar a atual Jordânia. 

Os árabes rejeitam a divisão, receando tornar-se minoria, bem como cobrando o apoio dado aos britânicos durante a guerra. 

Os impasses continuam nos anos seguintes, e após a Segunda Guerra Mundial, sem mais condições para administrar os conflitos e as pressões na região, os britânicos entregam a decisão de solução da disputa para a recém criada ONU. 

Em 1947, a Assembléia Geral da ONU determina a partilha da região a oeste do rio Jordão com a criação de um Estado Judeu e outro Estado Árabe, baseado na concentração de populações nos territórios, através da Resolução 181. 

A proposta da ONU para a divisão está representada no mapa ao lado. 

Mesmo sem a definição das negociações entre judeus e árabes, em 14 de maio de 1948, um dia antes do fim do Mandato Britânico, os israelenses declaram unilateralmente a constituição do Estado de Israel. 

Os países da chamada "Liga Árabe", composta por Síria, Líbano, Jordânia, Arábia Saudita, Iraque, Iêmem e Egito, se opõe a criação de Israel e conclamam os árabes locais a abandonar o território e que fosse declarada guerra contra a formação do Estado judeu. 

A Liga Árabe prometia derrotar os judeus e devolver todo o território para os árabes da região, no entanto, Israel vence a guerra contra os Estados Árabes, formando um país ainda maior do que o inicialmente proposto pela ONU. 

O Egito consegue ocupar a Faixa de Gaza e a Jordânia a região da Judéia e Samaria. 

Em 1967, a Liga Árabe mobiliza novamente seus exércitos contra Israel, mas novamente são derrotados. 

Naquela que ficaria conhecida como "Guerra dos 6 dias", Israel novamente derrota os árabes e desta vez ocupa as Colinas de Golã na Síria, a Península do Sinai no Egito e a região da Cisjordânia na Jordânia, incluindo o controle total sobre a cidade de Jerusalém. 

A partir da Guerra dos 6 dias, Israel adota política de construção de colônias civis de assentamento nos territórios desocupados, avançando e consolidando os territórios do país. 

Em 1978, o presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter, consegue reunir o presidente do Egito, Anwar Sadat, e o Primeiro-Ministro de Israel, Menachem Begin, em Camp David, a fim de negociar o primeiro acordo de paz entre árabes e israelenses. 

Neste primeiro acordo de "Camp David", Israel se compromete a devolver a Península do Sinai, bem como retirar as colônias israelenses construídas na região. O Egito se compromete a não mais atacar Israel e os dois países decidem restabelecer relações políticas e comerciais. 

OLP e a formação do Estado Palestino        

Em 1964, o Alto Comissariado da Palestina solicita à Liga Árabe a criação de uma organização para libertação da Palestina, a chamada OLP. 

O principal líder da OLP foi o egípcio Yasser Arafat, que participa ativamente das lutas e negociações do grupo por 40 anos, até sua morte em 2004.

Em 1988, a OLP proclama o estabelecimento do Estado da Palestina, no entanto sem reconhecimento internacional. 

Após anos de conflitos contra Israel e poucos avanços, Arafat decide suspender a luta armada e inicia negociações para o estabelecimento de um acordo diplomático de paz com Israel. 

Em 1994 são assinados os chamados "Acordos de Oslo" com o reconhecimento de Arafat como liderança legítima dos Palestinos, negociação de cessão de territórios para o estabelecimento de um Estado autônomo da Palestina na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. 

Infelizmente, tanto em Israel quanto entre os árabes houve resistências ao acordo e os conflitos posteriormente foram retomados. 


Atualmente a Faixa de Gaza é governada pelo Hamas, grupo terrorista contrário às negociações com Israel, e a Cisjordânia (região de Judéia e Samaria) é controlada pelo Fatah, grupo mais moderado. 

Os dois grupos também lutam entre si na Faixa de Gaza por disputas políticas e ideológicas. 

Em 29 de novembro de 2012, 65 anos após a Resolução 181, a Assembléia Geral da ONU numa votação histórica, decide reconhecer os territórios ocupados pelos palestinos como um Estado não-membro da ONU, status político semelhante ao do Estado do Vaticano. 

139 países foram favoráveis, entre eles o Brasil e a maioria dos Estados europeus. 9 países são contra, entre eles Israel, EUA e Turquia. 41 países se abstiveram. 

Israel     

A Grã-Bretanha, enfraquecida após a 2a Guerra Mundial, e com as pressões dos judeus e árabes, em 1947 entrega a responsabilidade de decisão sobre a partição dos territórios da Palestina para a ONU, que delibera a Resolução 181 para a formação dos Estados judeu e árabe e que estes dois Estados deveriam criar uma união econômica e aduaneira. 

No entanto, Israel, liderado por David Ben-Gurion em 1948 declara a Independência e criação do Estado de Israel. 

A Liga Árabe recusa a partilha proposta pela ONU e não reconhece a formação do novo Estado de Israel, declarando guerra um dia após a declaração de independência. 

A Guerra Árabe-Israelensede 1948, também chamada Guerra da Independência, dura mais de 1 ano. Com a vitória de Israel, mais de 700 mil refugiados palestinos ficam impossibilitados de retornar às suas casas, tendo que permanecer em campos de refugiados no sul do Líbano. 

O Estado de Israel é reconhecido pela ONU em 1949 e o país passa a receber milhares de imigrantes de todo o mundo, em especial sobreviventes da perseguição nazista da 2a Guerra e de judeus oriundos dos países árabes vizinhos. 

Após a Guerra dos 6 dias, em 1967, judeus são expulsos do Egito e também emigram para Israel. Esta guerra gera uma onda anti-judaísmo nos países de influência soviética e nos anos seguintes centenas de milhares de judeus desembarcam em Israel provenientes de países socialistas. 

Política em Israel 

David Ben-Gurion foi o primeiro Primeiro-Ministro de Israel, ocupando o cargo entre 1949 a 1953. 

Ben-Gurion foi sucedido por Moshe Sharett, que foi considerado um político de pouca expressão.  Gurion retorna ao poder em 1955 e fica até 1963. 

Levi Eshkol sucede Gurion em 1963 e fica no poder até 1969 quando vem a falecer. 

Golda Meir sucede Eshkol, construindo um gabinete de coalizão, convidando os partidos de direita para participar do governo.

O perfil simpático e carismático de Golda Meir atrai a simpatia internacional para Israel, no entanto, setores mais à esquerda acusam Golda de ser refratária às tentativas de paz com os árabes.   

A invasão de Israel pelos exércitos da Síria e do Egito em 1973 na Guerra do Yom Kipur, foi um grande desafio para o governo de Golda.

Israel consegue vencer mais esta guerra, no entanto com grande desgaste político para o governo.

Nesta época, os árabes percebem no petróleo uma forma de arma política: através da OPEP boicotam o fornecimento de petróleo para os países que apoiaram Israel na guerra, provocando pânico na economia mundial, naquele que veio a ser conhecida a 1a Crise do Petróleo. A crise que se sucedeu ao boicote gerou grande antipatia internacional contra Israel. 

Golda Meir é reeleita após a guerra, no entanto devido à pressões de diversos setores e frente à crise econômica acaba renunciando em 1974. 

Golda é sucedida por Yitzhak Rabin que retoma negociações com os árabes, especialmente com o Egito durante seu governo.

Rabin perde a eleição de 1977 para Menachem Begin. 

O governo de Begin dá continuidade às negociações com o Egito iniciadas por Rabin e assina os primeiros acordos de paz entre israelenses e árabes em Camp David em 1978. 

No entanto, o restante do mundo árabe repudia os Acordos de Camp David e expulsa o Egito da Liga Árabe. 

Primeira Intifada    

Após alguns anos de certa tranquilidade entre árabes e palestinos, em 1987 eclode uma revolta ("revolta das pedras") nos territórios árabes ocupados e em Jerusalém. 

Israel reprime os rebeldes com violência e sofre condenação da opinião pública internacional e da ONU. 

Acordos de paz de Oslo

No começo da década de 1990, após anos de luta armada, a OLP de Arafat e Israel se dispõem a negociar um caminho para a paz. 

As conversações são intermediadas pelo governo da Noruega e Arafat e Rabin, novamente Primeiro-Ministro de Israel, se encontram em Oslo para negociar.

As negociações avançam bem: Israel aceita ceder terras para o estabelecimento de um Estado autônomo na Faixa de Gaza e na Cisjordânia, em troca, a OLP reconheceria o direito de existência do Estado de Israel e renunciaria ao combate armado e o terrorismo contra Israel. 

Este acordo deveria, em tese, abrir caminho para uma paz definitiva com os demais países árabes na região. 

Em 1994, a Jordânia assina acordo de paz com Israel em Camp David. 

Arafat, Rabin e Shimon Peres, então chanceler de Israel, recebem o Prêmio Nobel da Paz em 1994. 

Em 1995 Israel e a OLP ratificam os Acordos de Oslo, aparentemente consolidando o caminho para uma paz definitiva. 

Resistências aos Acordos de Oslo e o assassinato de Yitzhak Rabin   

A OLP agora transformada em governo começa a receber ajuda financeira e inicia organização administrativa e criação de uma força militar. 

No entanto, grupos terroristas como o Hamas, na Faixa de Gaza, e a Jihad Islâmica, na Cisjordânia, não aceitam a paz com Israel e ameaçam não interromper os ataques contra Israel. 

Do outro lado, grupos de extrema direita e lideranças religiosas de Israel não concordam com as concessões de territórios aos árabes, nem o reconhecimento de um novo Estado Palestino. 

Em 4 de novembro de 1995, Yitzhak Rabin é assassinado por um extremista judeu. 

Netanyahu e Barak

Shimon Peres assume o lugar de Rabin, mas perde as eleições de 1996 para Benjamin Netanyahu. 

Netanyahu e seu partido Likud demonstram maior ceticismo em relação aos acordos de paz com os árabes. 

Os ataques terroristas do Hamas e da Jihad continuam contra Israel, reforçando a percepção negativa do governo e da população de Israel contra os palestinos. 

O processo de paz recua e o governo israelense bloqueia os acessos aos territórios palestinos autônomos. 

Em 1997, os EUA reconhecem Jerusalém como capital de Israel, gerando protestos no mundo árabe. 

Israel passa por crises econômicas e protestos populares contra o governo do partido Likud de Netanyahu. 

Em 1999 o trabalhista Ehud Barak vence as eleições. Com posição mais moderada e perfil semelhante ao de Yitzhak Rabin, Barak retoma as negociações com a OLP e com a Síria. 

No entanto, em 2000, o líder do Likud, Ariel Sharon, faz uma visita ao Monte Sagrado do Templo Moriá em Jerusalém, área administrada pelos Palestinos, gerando indignação e protestos. 

A visita de Sharon ao Templo faz eclodir a 2a Intifada, provocando grave crise institucional do governo de Ehud Barak, a paralisação das negociações de paz e o retorno da violência entre Israel e os Palestinos. 

Ariel Sharon

Com a 2a Intifada e a escalada de violência, Ariel Sharon vence as eleições em 2001, com discurso belicista contra os palestinos. 

Sharon é muito criticado pela opinião internacional, mas não retrocede e declara Arafat personalidade irrelevante. 

As retaliações israelenses vitimam populações civis palestinas e alimenta a revolta dos demais países árabes. 

Em 2006 Sharon é sucedido por Ehud Olmert como Primeiro Ministro. 

Desde 2007, Israel jantem a Faixa de Gaza bloqueada, com objetivo de sufocar o governo do Hamas. 

Em 2009, Sharon volta ao poder e é o atual Primeiro-Ministro de Israel. 

A última crise recente entre Israel e os Palestinos, com os bombardeios da Faixa de Gaza e o uso desproporcional da força por Israel, matando milhares de civis palestinos, é mais um capítulo desta história de sangue que parece não estar perto de uma paz definitiva. 

fontes: 1  Manual do Candidato (FUNAG) Política Internacional - 2012 
            2  Manual do Candidato (FUNAG) História Contemporânea - 3a Ed - 2012
   
            3  A Era dos Extremos - Eric Hobsbawn 
            4 A Era dos Impérios - Eric Hobsbawn 

sábado, 19 de abril de 2014

Mundo árabe e as cicatrizes da partilha colonial


Mapa do Império Britânico, o maior da história que cobriu 36,6 milhões de quilômetros quadrados, com uma população em torno de 531,3 milhões de pessoas, o equivalente a 26% da população do planeta, na época. 










Cicatrizes profundas da partilha colonial 

Dividido pela França e pelo Reino Unido - as potências vitoriosas da Primeira Guerra Mundial - , o mundo árabe paga até hoje pela partilha colonial. E a lembrança desse período, especialmente a promessa de criação de um "lar nacional judeu", ainda ronda os espíritos.  

por Jacques Thobie


Que os Estados oriundos da descolonização herdaram fronteiras estabelecidas na base de interesses e rivalidades de antigas potências coloniais é uma realidade indiscutível, e é possível imaginar facilmente os problemas enfrentados pelos novos dirigentes para garantir a estabilidade e o interesse nacional. Esse problema tornou-se mais complexo nos países árabes pela evocação, tanto histórica como sentimental, dos interesses na “nação árabe”.

A tomada da Argélia em julho de 1830 marcou, ao mesmo tempo, a instituição do segundo império francês e o desmantelamento das províncias árabes do Império Otomano. 

Como em todas as conquistas coloniais, havia múltiplos fatores em jogo – econômicos, políticos, estratégicos, culturais –, mas as doses variavam de acordo com o tempo e as circunstâncias. 

O contexto era de conflito e disputa com o rei da Argélia, país de importância estratégica no Mediterrâneo Ocidental (sobretudo diante da expansão da Grã-Bretanha); também estavam em jogo interesses econômicos e comerciais, além das dificuldades internas do regime. A tomada do país árabe desencadeou um longo processo de conquista que se estenderia, no caso dos territórios saarianos, até a Primeira Guerra Mundial.

A instalação dos britânicos em Áden (1839) e a dos franceses em Obock-Djibuti (1862) ganhariam uma importância capital após a abertura do Canal de Suez (1869). 

Essas estratégias de ocupação ilustram o argumento crucial da segurança nas comunicações inter-regionais: a famosa “rota das Índias” para os britânicos, mas ao mesmo tempo a rota da Indochina e do Extremo Oriente. 

De resto, os italianos se instalaram na Eritreia (1881) e, como os britânicos em 1884, ficaram com uma porção da Somália (1869-1882).

No caso tunisiano, um fator foi sistematicamente usado como pretexto para a dominação (entenda-se conquista): o endividamento. 

A partir de 1850, iniciou-se a exportação de capitais de Londres e Paris em direção a Túnis, Cairo e Constantinopla. As reservas de capital dos países industriais eram dirigidas, sob a diligência de banqueiros ocidentais, aos caixas de príncipes necessitados, porém preocupados em assegurar o funcionamento de suas máquinas estatais e iniciar a instalação de equipamentos industriais modernos em seu país. 

O volume e as condições dos empréstimos obviamente conduziriam à bancarrota, que, por sua vez, justificaria a criação, na Tunísia, de um organismo controlado pelos credores para gerenciar diretamente uma parte dos recursos do país destinados ao reembolso da dívida. 

Com a segurança de um órgão gestor in loco, seria possível retomar os empréstimos e, portanto, novamente o processo de endividamento. Se as dificuldades de pagamento permanecessem, o país poderia ser ocupado. É o que aconteceria, de fato, com a Tunísia, o Egito e o Marrocos.

Assim, em março de 1870 foi instalada na Tunísia uma comissão financeira formada por Grã-Bretanha, Itália e França (cujo papel foi preponderante). 

Em seguida, iniciou-se uma grande competição entre seus membros, mas a França gozava de vantagens: o papel ativo de banqueiros, especuladores e industriais; a proximidade da Argélia; o apoio de Bismarck (que buscava desviar as atenções de Paris para a região da Alsácia-Lorena). O Tratado de Bardo, assinado em maio de 1881, selava o protetorado francês sobre a Tunísia.

A bancarrota egípcia de 1875 desencadeou um cenário comparável ao tunisiano, porém mais complexo. 

A França e a Inglaterra atuavam juntas como potências soberanas no Canal de Suez, gerenciavam a dívida egípcia (caixa e comissão da dívida) e estavam à frente de duas pastas ministeriais. 

A revolta nacional de Ahmed Pasha foi o pretexto para a intervenção militar. Perante a proposta britânica de ação comum, a França, que tinha interesses financeiros e culturais consideráveis, decidiu abster-se: precisava “digerir” a Tunísia, estar livre de pressões de interesses financeiros e econômicos, manter as relações diplomáticas com Bismarck – que dessa vez franziu a testa. 

A Grã-Bretanha ocuparia o Egito (julho de 1882) sozinha e ampliaria sua conquista com a criação do Sudão Anglo-Egípcio.

Desde o início do século XIX, a Grã-Bretanha vigiava as costas orientais da Península Arábica com a preocupação de assegurar a proteção imediata da Índia, uma das razões pelas quais havia assinado tratados de protetorado com os sheiks da Costa dos Piratas, Bahrein, Mascate e, em 1899, com o emir do Kuwait – onde os protestos de Constantinopla não impediram os britânicos de instalar uma base naval em 1908.

Após a Guerra Ítalo-Turca (1911-1912), o agressor italiano avançou sobre a Tripolitânia e a Cirenaica. Constantinopla não havia escapado da criação, em 1881, de uma administração da dívida pública otomana, presidida alternadamente por um britânico e um francês. 

O fato de o Império Otomano conservar o essencial de suas possessões asiáticas (antes de 1914) se devia à cumplicidade das potências imperialistas, que se contentaram, à espera da grande partilha, em dividir outras zonas de influência por acordos assinados em 1913-1914.

A Alemanha abocanhou o território ao longo de sua estrada de ferro até Basra, a parceria anglo-alemã ficou com a parcela de Basra ao Golfo, e a França, com Síria e o Monte Líbano. Em 1911, a criação da sociedade anglo-alemã Turkish Petroleum Co. marcou o início dos interesses no petróleo da região, antes concentrados na Pérsia.

Restaria, no extremo ocidente do mundo árabe, o Marrocos, peça do xadrez altamente cobiçada. 

A França desempenhou um papel primordial nos empréstimos marroquinos e na criação de sociedades industriais. Depois, Paris jogou com astúcia e provocou o desinteresse da Itália (trocou a Tripolitânia pela parcela marroquina italiana), da Grã-Bretanha (no encontro cordial de abril de 1904, este país concedeu à França o domínio do Marrocos em troca do Egito) e da Espanha (promessa do Norte do Marrocos, outubro de 1904). 

A gestão internacional do país havia se tornado impossível depois do acordo de Algesiras (1906) e finalmente a França também fez que a Alemanha se desinteressasse, em acordo tenso que rendeu aos germânicos parte do Congo. 

Em março de 1912, com o argumento da segurança dos confins argelinos, banqueiros, industriais, diplomatas e militares permitiram a instalação do protetorado francês no Marrocos – um dos exemplos mais bem acabados de colonização imperialista. A “pacificação” duraria até meados dos anos 1930 – mesma época da conquista da Mauritânia, nos confins do Río de Oro, não ocupada efetivamente pela Espanha.

Com o Império Otomano ao lado das potências centrais e o prolongamento da Primeira Guerra Mundial, os combatentes buscaram outros aliados e definiram com mais precisão seu alvo de guerra: a partilha do território inimigo uma vez obtida a vitória. 

É nesse contexto que apareceram quatro séries de documentos essenciais para o que seria o futuro das regiões árabes da antiga Turquia.

Em dezembro de 1915, os britânicos assinaram um tratado com Ibn Saud: em troca de Londres reconhecer sua soberania sobre o Nedj, Al-Hassa, Qatif e Djubail, Ibn Saud aceitou a proteção de Londres e prometeu manter-se neutro e vigilante na guerra contra os turcos. 

A partir de julho de 1915, foi estabelecida uma correspondência entre o xarife de Meca, Hussein, e o alto comissário inglês no Cairo, Mac Mahon: se os árabes entrassem em guerra contra os turcos, Londres prometia o estabelecimento de um reino árabe reagrupando o essencial das regiões árabes do antigo império; embora permanecessem as incertezas sobre o destino da Cilícia e das regiões fronteiriças da Síria, o xarife Hussein levantou em 1916 o estandarte da revolta árabe e seu filho, Faiçal, comandou o Exército árabe.

Os longos e desgastantes debates resultaram nos acordos de Sykes-Picot (maio de 1916), que definiam em linhas gerais a partilha da região entre os franceses e os britânicos: a França ficaria com a costa síria e o Monte Líbano (zona azul), além do interior da Síria e a região de Mossul (zona A) como protetorados; a Grã-Bretanha disporia da Mesopotâmia (zona vermelha) e, como protetorado, a zona que se estendia do Egito ao Golfo Pérsico (zona B); e as zonas A e B representariam o eventual reino árabe. 

Ao redor de Jerusalém e de lugares santos, seria previsto um estatuto internacional (zona marrom), a ser negociado. Enfim, em 17 de novembro de 1917, a declaração de Balfur prometia a criação de um “lar nacional judeu” na Palestina.

França e Grã-Bretanha em disputa

A vitória dos aliados significava, naturalmente, o desmantelamento do Império Otomano: com a Alemanha eliminada pela derrota, a Rússia pela revolução e pela derrota, a Itália considerada uma aliada insignificante e com a recusa dos Estados Unidos de se engajar na batalha territorial da região, o cenário se restringiu à disputa franco-britânica, na qual as relações de força e o cheiro do petróleo seriam determinantes.

Os acordos Sykes-Picot serviram de base para a partilha, com algumas modificações: Paris aceitaria, por exemplo, abandonar Mossul e deixá-la para os ingleses em troca da parte alemã na Turkish Petroleum Co.; a zona internacional seria abandonada. 

Para apaziguar o presidente norte-americano Thomas Woodrow Wilson, seria inventado o quadro jurídico do mandato, obra-prima e artimanha que mascarava os objetivos coloniais e imperialistas com um discurso civilizador. 

O compromisso franco-britânico de setembro de 1919 selou a morte da ideia de um Estado árabe unificado, e os acordos de San Remo (abril de 1920) consolidariam essa posição: à França, a Síria; e à Grã-Bretanha, a Palestina e a Mesopotâmia.

Em setembro de 1920, a França delimitou e criou o grande Líbano com base na reivindicação de seus clientes maronitas e em detrimento dos sírios, que protestaram; não bastasse, a Síria, cujo efêmero rei Faiçal estava reduzido ao exílio, foi dividida e ainda ganhou um estatuto especial para o sandjak (província) de Alexandreta, que seria restituído à Turquia em 1939.

No Iraque, a Grã-Bretanha, que teve de enfrentar uma poderosa revolta em 1920, decidiu estabelecer um interlocutor com o coroamento de Faiçal em agosto de 1921. Reivindicada pela Turquia kemalista, povoada majoritariamente de curdos, embebida de petróleo, a antiga cidade de Mossul foi finalmente atribuída ao Iraque pela Sociedade das Nações (SDN), em 1925.

Na Palestina, quando a declaração de Balfur foi integrada à carta do mandato – apesar dos fortes protestos árabes –, a Grã-Bretanha confrontou-se com graves contradições que a interpretação sutil da declaração não conseguiria mais atenuar. 

Por que a Grã-Bretanha havia inventado a Transjordânia ? 

A resposta forneceu um dos elementos fundamentais da partilha durável da região. 

Em primeiro lugar, Londres precisava de um espaço onde sua autoridade fosse inconteste para poder assegurar a continuidade da estratégia imperial do Mediterrâneo ao Iraque (escoamento do petróleo de Mossul) e do Egito ao Golfo e à Índia. 

A Grã-Bretanha queria circunscrever a região onde seria aplicada a declaração de Balfur e limitar as ambições de Ibn Saud, cujas tropas haviam triunfado na ocupação da Arábia Interior e não parariam até a fronteira síria. Enfim, a criação do emirado da Transjordânia em março de 1921 e a concessão de uma subvenção anual permitiriam aplacar a fúria de um dos filhos de Hussein, o turbulento  Abdallah (a quem seria atribuído o emirado), cujo exército seguia atacando as tropas francesas na Síria.

A Grã-Bretanha desempenhou um papel determinante na delimitação das fronteiras: o limite entre a Transjordânia e a Palestina foi fixado no Rio Jordão e no meio do Mar Morto; a fronteira do Sul seria estabelecida a partir de um acordo com Ibn Saud, que concederia Ácaba à Transjordânia (1925). 

A leste, as negociações foram realizadas em função da presença do petróleo: em 1922, foram definidas as fronteiras da Arábia de Ibn Saud com o Iraque (a favor deste) e com o Kuwait (em detrimento deste); ademais, para facilitar oficialmente os deslocamentos dos beduínos, o acordo criou, a oeste e ao sul do Kuwait, duas zonas neutras sobre as quais os países fronteiriços tinham direitos iguais. 

Em 1923, a fronteira entre o Kuwait e o Iraque, dois territórios dependentes da Grã-Bretanha, foi definida sem problemas: a delimitação adotada era visivelmente destinada a impedir que o Iraque acedesse a uma faixa marítima útil no Golfo, mar britânico.

Esse era o cenário no qual, do Atlântico ao Golfo, se realizaria a colonização. 

No fim dos anos 1920, apenas dois países árabes se tornaram independentes no sentido de não ter nenhuma tropa estrangeira em seus territórios: o Iêmen, praticamente depois de 1913, e a Arábia de Ibn Saud, que também destituiria Hussein e subiria ao poder em 1927. 

O início da descolonização árabe, ainda parcial, foi marcado pelo tratado anglo-iraquiano de 1930.

Esse breve voo panorâmico sugere que o argumento histórico a favor de uma revisão das fronteiras coloniais é frágil na medida em que é perfeitamente reversível. De fato, o argumento histórico quase sempre omite um ou muitos outros, bem reais nesse caso.

Jacques Thobie
Professor de História das Relações Econômicas Internacionais da Universidade de Paris VIII. 


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