domingo, 22 de março de 2015

[ Book Review ] Formação do Brasil Contemporâneo

Publicado em 1942, Formação do Brasil contemporâneo é um clássico do pensamento social e da historiografia brasileira que vem mobilizando estudiosos e atores políticos, seja para aceitar suas teses, problematizá-las ou mesmo rejeitá-las. 

Como poucos, o livro conseguiu formar nossa visão das origens coloniais do Brasil e do seu legado à nação. Divergindo daqueles que entendiam o período colonial em termos equivalentes ao feudalismo na Europa, Caio Prado Jr. o situa no processo de expansão ultramarina europeia resultante do capitalismo mercantil. 

Explicação tão bem-sucedida que dificilmente alguém acreditaria hoje num passado feudal brasileiro.

Mas este livro é um clássico também pelo que nos permite entender de certos desafios tenazes, ainda hoje abertos à sociedade. Sua tese fundamental é a de “sentido da colonização”, que expressa a reiteração, mesmo após a nossa independência política, do papel do Brasil como fornecedor de produtos primários demandados pelo mercado externo. 


Apesar das mudanças em curso desde então, e das novas configurações da cada vez mais complexa dialética entre centro e periferia, talvez bastasse constatar a importância no Brasil de hoje das commodities agrícolas e minerais para sugerir a atualidade da análise central do livro.

Caio Prado Jr

Caio da Silva Prado Júnior nasceu em São Paulo, em 1907 em uma família de políticos e da sociedade nobre paulista. Formado em Direito, foi também escritor, geógrafo, historiador, político e editor. 
Bacharelou-se em Direito pela Faculdade do Largo de São Francisco, em São Paulo, onde mais tarde seria livre-docente de Economia Política.
Como intelectual teve importante atuação política ao longo das décadas de 1930 e 1940, tendo participado das articulações para a Revolução de 1930. Decepcionado com a inconsistência política e ideológica da República Nova, aproximou-se do marxismo e filiou-se ao Partido Comunista do Brasil, em 1931.
Por sua posição política e militância, Caio Prado Jr foi preso e exilado pela ditadura do Estado Novo nos anos 30 e também pela Ditadura Militar nos anos 60. 
Ao lançar A Revolução Brasileira em 1966, e conceder entrevista criticando a luta armada, teve também cassado o seu título de Livre Docente pela faculdade de de Direito da USP. 
Geógrafo e com formação em Direito, foi porém na História que Caio Prado Jr finca sua obra literária, iniciada com Evolução Política do Brasil (1933), e tem em Formação do Brasil Contemporâneo, de 1942, a consolidação de referência definitiva para toda uma geração de historiadores, sociólogos e acadêmicos. 

Formação do Brasil Contemporâneo: Colônia

Formação do Brasil Contemporâneo: Colônia é estruturado em três partes "Povoamento", "Vida Material" e "Vida Social" que vem precedidos de um texto chamado "O Sentido da Colonização".
Caio Prado diz que a colonização era apenas mais um item da empresa em que estavam imbuídos os portugueses, mas não é tão rigoroso com a metrópole como é com a colônia, chegando a comparar as colônias de clima tropical com as de clima temperado e colocando as tropicais, caso do Brasil, como inferiores.
Na parte dedicada ao "Povoamento", o livro se divide em Povoamento, Povoamento Interior, Correntes de povoamento e Raças. Neste capítulo vemos como foi formada a população do Brasil colônia, onde não se tem precisão sobre a densidade demográfica do Brasil no período e as informações sobre a população só eram colhidas para fins eclesiásticos ou militares.
É traçado um panorama sobre a expansão marítima e o comércio europeu, principalmente Ibérico, em fins do século XV e início do XVI onde há um grande movimento de expansão por parte principalmente dos ibéricos.
A região nordeste - principalmente Pernambuco e Bahia - tem grande importância no povoamento da colônia, que era dividido em núcleos como o núcleo litorâneo, que conferia ao dois estados nordestinos já citados e ao Rio de janeiro um papel de extrema importância na formação da população colonial.
Caio fala sobre o povoamento do interior do Brasil, com sua agricultura de subsistência, lugares como Goiás mato Grosso e minas Gerais, além de São Paulo, onde faz uma ressalva desconsiderando as expedições bandeirantes que não eram povoadoras e sim exploradoras e de sentido nômade. 
As três raças, ou culturas como defendia outro historiador - Gilberto Freyre - são vistas de forma bem díspares por Caio Prado. Dos portugueses vieram os excedentes demográficos do Reino, enfraquecido pelo comércio com o Oriente.

O negro aparece com um ser boçal, uniformizado pela escravidão, um braço sem cultura e sem vontade própria, do qual o colonizador serviu-se de sua força e do forte apelo sexual de suas mulheres e rejeita a tese que a escravidão foi "(...) um molde comum que os identificou." (p. 81).
Ao falar do índio, é dito que "(...) o índio foi o problema mais complexo que a colonização teve de enfrentar". (p. 86). O colonizador objetivava retirá-lo da selva e oferecê- lo uma vida cristã em troca de sua escravidão, situação amenizada pelas missões jesuítas que mereceram um destaque no livro, além da Legislação Pombalina.
A miscigenação e a mestiçagem do povo brasileiro era feita mais branco/negro e negro/branco, no livro não se descreve com a mesma ênfase a relação branco/índio e em escala inferior negro/índio. Há também a escassez de mulheres brancas e também a sua falada "frieza".
Nesta primeira parte do livro somos apresentados a um grande diferencial entre Caio e outros autores que trataram do mesmo tema. Caio analisa mais profundamente as correntes de povoamento, levando em conta suas diferenças regionais e culturais , não generalizando, transformando em uma massa uniforme.
Ao falar sobre "Vida Material", Caio dá uma ênfase à economia colonial, que tem na agricultura seu mais forte expoente, seguida da mineração e em escala menor a pecuária. 
Predominava a monocultura, trabalhada por escravos, era uma agricultura de coivara, descrita como uma continuação da agricultura indígena, com imenso desmatamento e totalmente extrativista, sem preocupação em trabalhar o solo e sim esgotá-lo e abandoná-lo em prol de outro ainda virgem.
A lavoura determinou toda organização social e econômica através da "(...) disposição das classes e categorias de sua população, o estatuto particular de cada uma e dos indivíduos que as compõem." (p. 142). Havia a agricultura de exportação com forte trabalho escravo e a agricultura de subsistência trabalhada pelo próprio lavrador, modesto e mesquinho.

Os produtos mais cultivados eram o algodão, a cana de açúcar e o tabaco que "(...) constituem os fundamentos da agricultura colonial." (p. 151). Em escala menor era cultivado o cacau, o arroz e o anil, que é descrito como uma esperança frustrada, pois não era competitivo perante o anil indiano.
A mineração - a mais conhecida pelo senso comum, através do ouro das Minas Gerais - é descrita sob a forma de uma indústria mineradora que esgotava os recursos minerais da colônia e enviava quase toda sua produção para fora do país e (...) deixou to poucos vestígios, a não ser a prodigiosa destruição dos recursos naturais que semeou pelos distritos mineradores, e que ainda hoje fere a vista do observador (...)" (p. 173)
A pecuária é analisada sob as particularidades regionais, nos estados do sul era mais avançada, devido ao domínio espanhol na pecuária da região, outro grande centro foi Minas Gerais e havia o contrabando interno de bestas, muito úteis na lavoura e no transporte da produção.
A região amazônica tem seu destaque na cultura extrativista principalmente pela extração madeireira, além da extração do sal e da caça à baleia, também realizadas em outras regiões e encerra falando de atividades ligadas as artes e a indústria, onde se destacam o artesanato, com sua cerâmica e a indústria incipiente e de pouca expressão.
O comércio é analisado através de sua estrutura fincada na base colonial de produção de gêneros tropicais e matais preciosos para um comércio exterior - feito essencialmente por via marítima - e o pequeno comércio interno, onde "o contrabando era mais fácil e proveitoso." (p.237)
As vias de comunicação e transporte são dissecadas em sua particularidades e dificuldades. No transporte terrestre, a precariedade de estradas, onde há o predomínio de matas fechadas, e o transporte fluvial e suas dificuldades diversas, como o grande número de pedras e quedas em nossos rios e as correntes marítimas que dificultavam a navegação de cabotagem.
Das três partes em que está calcada a obra, é essa que merece maior atenção e esmero por parte do autor que traz uma farta e pormenorizada informação sobre a economia colonial.

Ao falar sobre a "Vida Social", é deixado claro que a mola mestra pra o funcionamento da sociedade colonial foi a mão de obra escrava e no início deste capítulo é feito um paralelo entre a escravidão empregada no Brasil Colônia e a escravidão antiga.
Surge assim um corpo estranho que se insinua na estrutura da civilização ocidental, em que já não cabia. E vem contrariar-lhe todos os padrões morais e materiais estabelecidos. 
Traz uma revolução, mas nada prepara. (...) Nada mais particular, mesquinho e unilateral. (P. 278)
Caio Prado com essa observação atenua um pouco o discurso racista que usa contra o escravo negro, que é citado em toda a sua obra e cita que a religião católica, mesclou-se com rituais e crenças africanas. Mesmo assim mais a frente Caio volta com seu discurso racista dizendo: "A contribuição do escravo preto ou índio para a formação brasileira é além daquela energia motriz quase nula." (p. 280)
A organização social estava centrada na figura da "família patriarcal" ? como também defendeu Sérgio Buarque de Holanda em seu Raízes do Brasil - as cidades tinham uma hierarquia e organização social herdada dos grandes engenhos. Tudo gravita em torno da sociedade patriarcal, católica e escravocrata.
Caio neste em que usa várias páginas para discorrer sobre a escravidão, cita também ao preconceito do colonizador, que não aceitava seus descendentes realizando "trabalhos mecânicos" que eram destinados a negros ou a libertos, que eram enxergados sob a mesma ótica.
É citada uma pequena massa de profissionais liberais e é descrita a classe dos vadios, que sem ocupação oficial, tendem a enveredar pelo crime e praticar desordem. Habitavam as vilas assim como as prostitutas.
Aqui Caio cunha o conceito de orgânico - no qual insere a família patriarcal e a total mão de obra escrava -  e o inorgânico - formado por essa população livre que praticava a agricultura de subsistência e pelos "vadios".
Além da família patriarcal uma segunda esfera de poder na colônia era a igreja, com seus laços estreitos na família patriarcal, constitui uma base econômica sólida e centralizada na colônia.

A "Administração Colonial" é definida como desarmônica e caótica onde são mostradas as diversas esferas de poder com o "Governador das Armas" e o "Governador da Justiça" a acumulação de tributos e a importância do "Real Erário" e do dízimo eclesiástico, que foi incorporado aos impostos reais.
È falado também de forma sucinta e concisa das Forças Armadas, e das "milícias não oficiais" mas que acabam sendo "extra-oficiais.". É citado também um sistema eleitoral onde participam os "Homens bons", ao povo é vedada a participação. È também citado a Administração dos Índios, a Intendência do ouro e dos diamantes e a Intendência da Marinha.
Por fim é falado de forma bem reduzida a Vida Social e Política" da colônia onde "Raças e indivíduos mal se unem, não se fundem num todo coeso: justapõe-se antes uns aos outros; constituem-se unidades e grupos incoerentes que apenas coexistem e se tocam." (p. 353). 
E aí mais uma vez aparece a escravidão onde vale à pena citar uma nota de rodapé:
A escravidão foi uma das poucas coisas com vistos de organização que esta país jamais possuiu... Social e economicamente, a escravidão deu-nos, por longos anos, todo esforço de toda a ordem que então possuímos e findou toda a produção material que ainda temos. (p. 386)
O colonizador português vai o Brasil não como uma sociedade ou uma economia e sim, tão somente como "finanças" à cuidar. O sistema colonial não era "reformável" e começa a surgir assim o seu enfraquecimento, talvez influenciado pelas revoltas interna que pululam o Brasil no século XVIII. 
Aparece aqui também a figura da Maçonaria, que influencio de forma sutil e indireta as idéias desse início de século
No livro é defendida a tese da Independência, quase que por conveniência, como uma solução para a metrópole, pois a colônia estava virando um "fardo" difícil de carregar e que o século XIX, principalmente após a chegada da família real portuguesa seria desgastante para a metrópole, que assim viu sua colônia independente, mas continuou administrando-a, através de seus imperadores da família Bragança.

Conclusão

Formação do Brasil Contemporâneo: Colônia, é uma obra para ser lida e relida, devido a grande gama de informações nela contidas e que com sua riqueza de detalhes vem 
elucidar e desfazer algumas ideias que ficaram como "senso comum" e enraizadas no inconsciente popular causando visões distorcidas e juízos de valor errôneos sobre as relações colônia/metrópole, principalmente sob seu viés econômico.
Caio Prado coloca-se assim como uma grande referência - assim como seus contemporâneos Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda - e leitura obrigatória a quem quiser entender mais sobre a formação e a organização que originou o que vivemos hoje.

fontes: (1) Web Artigos
            (2) Revista Políticas Públicas UFMA
            (3) EACH - USP

sexta-feira, 20 de março de 2015

[ Book Review ] Raízes do Brasil

“Raízes do Brasil” é um dos livros mais importantes para o entendimento da formação social do Brasil. 

Ao lado de “Evolução Política do Brasil” de Caio Prado Jr e da dobradinha “Casa Grande & Senzala/Sobrados e Mucambos” de Gilberto Freyre, é essencial para a boa formação de um cientista social.

Leitura obrigatória para se entender as origens e a formação multiétnica do povo brasileiro.   










Sérgio Buarque de Holanda 

Sérgio Buarque de Holanda foi um dos mais importantes historiadores brasileiros. Foi também escritor, jornalista e crítico literário. Sérgio  nasceu em São Paulo em 1902 e veio a falecer, também em São Paulo em 1982. 

Escreveu vários livros, como "Cobra de Vidro"(1944), "Caminhos e Fronteiras"(1957), "Visão do Paraíso" e sua obra mais famosa foi "Raízes do Brasil" de 1936.   

Raízes do Brasil

Raízes do Brasil trata, essencialmente, da transição do modo rural para o urbano que se delineava nas primeiras décadas do século XX na sociedade brasileira. É muito importante perceber que o livro foi escrito diante de um cenário de centralização administrativa que alterou o lugar dos grupos de poder local e regional, principalmente depois da Revolta de 1930.

Fazendo uma análise mais global do livro, é possível notar que Sergio Buarque de Holanda desenvolve um raciocínio partindo de uma visão macro e sucessivamente vai destrinchando cada tema mais restrito, até chegar às verdadeiras “Raízes do Brasil”. 

Partindo da análise do que seriam Portugal e Espanha – Fronteiras da Europa, passando pela cultura da personalidade e a virtude da aventura, depois dissertando sobre a herança que o brasileiro traz desse contato, os desdobramentos da “Cordialidade” e por fim a chegada dos novos tempos.

Em tese, poderíamos intuir que Sergio Buarque está se perguntando “que tipo de urbano será possível em uma sociedade que ainda demonstra muitos aspectos e condutas do antigo meio rural?” 

Segundo sua análise mais complexa, seria necessário buscar uma explicação bem longe daqui. 

Para ele, Portugal e Espanha não faziam parte do bloco econômico-cultural da Europa. Por esse motivo ele intitula o primeiro capítulo como “Fronteiras da Europa”, pois para ele a Ibéria apresentava uma cultura muito miscigenada, influenciada por diversas religiões e invasões de outros povos que não faziam parte do bloco dos países centrais do continente europeu.

Na sociedade ibérica, não só era possível, como também era desejável que houvesse uma ascensão social. Em outras palavras, a mobilidade social era permitida e até incentivada. Característica muito distinta da que se apresentava na Europa, pois o Feudalismo europeu se mostrou tão fortemente presente que fora preciso que a burguesia se organizasse através de uma Revolução para ter condições de penetrar nas classes mais abastadas daquela estrutura social. 

Já na Ibéria, até mesmo aqueles indivíduos que ocupavam a posição de escravo, podiam ascender socialmente, chegando estes a possuir outros escravos. No livro As Metamorfoses do Escravo de Octavio Ianni, esta ascensão social fica bem cristalina.

Na verdade, na concepção Ibérica da natureza humana, há de se valorizar o indivíduo que cresce e se desenvolve ao longo da vida. É o que Sergio Buarque chama de “Cultura da Personalidade”, um sentimento de autonomia e independência de um indivíduo que se sobressai em relação aos demais. 

Isto é tido como um “valor”, sendo desejável e admirável. Este sentimento, muito perene no descobridor desbravador, representa além de outras coisas, uma característica que confere ao indivíduo a possibilidade da mover socialmente na estrutura da sociedade Ibérica.

Tanto em Portugal quanto na Espanha, o regime feudal nunca foi tão rígido, exatamente por isso, não foi necessário promover uma revolução como as que ocorreram na França e na Inglaterra. O Brasil como herdeiro dessa cultura, apresenta uma acomodação desses regimes, promovendo uma transição suave, sem ruptura. 

A característica mais marcante dessa acomodação pode ser exemplificada pela figura do “Homem Cordial”. Lembrando que a cordialidade não tem relação com modo cortês e sim se cristaliza pelo trato maleável que o brasileiro costuma se relacionar no seu dia-a-dia. 

Podendo ser compreendido pelo famoso “jeitinho brasileiro”, pela situação corriqueira de uma pessoa que vendo uma gigantesca fila bancária, logo se apressa em procurar um conhecido que esteja mais próximo do caixa, com o objetivo de agilizar sua vida, não sendo capaz de perceber que acaba por prejudicar outras pessoas.

Esta anedota serva para mostrar o que Sergio Buarque chama de conflito entre público/privado. Para ele, a presença da “cordialidade” faz com que os indivíduos tenham dificuldade para discernir o público daquilo que é privado. Desta maneira, as pessoas acabam usando de suas preferências particulares que deveriam ficar restritas aos relacionamentos e aos assuntos privados, acabem sendo empregadas no âmbito público.

Segundo ele, estas relações sociais predominantemente patriarcais, interferem na transição dessa sociedade causando um desequilíbrio social. Sergio Buarque aponta as tensões da cidade como herança do sistema patriarcal, colocando o patrimonialismo e o personalismo como obstáculos a uma sociedade impessoal, moderna e livre que são características imperativas para esses novos tempos de urbanização.

Resumo do Livro

O primeiro capítulo, “Fronteiras da Europa”, dispõe características dos países da Península Ibérica e suas diferenças no processo de colonização da América. 
O autor proporciona a reflexão sobre os defeitos dos brasileiros dos dias atuais, tais como frouxidão das instituições e a falta de coesão social, mostrando que esses sempre existiram desde a origem. 
Em outras palavras, possibilita o entendimento da origem do brasileiro, cujos defeitos foram herdados de nossos colonizadores. Alude a um dos temas fundamentais do livros: a repulsa pelo trabalho regular e as atividades utilitárias.
No segundo capítulo, “Trabalho e aventura”, o autor distingue o trabalhador e o aventureiro, os quais possuem éticas opostas. O primeiro busca segurança e recompensa a longo prazo, já o segundo busca novas experiências e a riqueza a curto prazo. 
Dessa forma, considera que espanhóis e portugueses foram aventureiros no novo continente e Holanda afirma que essas características foram positivas para o Brasil.
O terceiro capítulo, “Herança rural”, analisa a marca da vida rural na formação da sociedade brasileira. Expõe sobre os donos de terras brasileiros, que ao contrário dos europeus, viviam nas colônias, providenciavam sua própria segurança e faziam suas próprias leis, direito esse concedido pelo pátrio poder. 
As pessoas iam aos centros urbanos a fim de participar de solenidades e festejos. O autor termina o capítulo afirmando que o ruralismo predominou pelo esforço dos colonizadores e não por imposição do meio.
O quarto capítulo, “O semeador e o ladrilhador” estuda a importância da cidade como instrumento de dominação e a diferença entre espanhol e português nesse aspecto. O espanhol teve como intuito estabelecer um prolongamento estável da Metrópole, enquanto que os portugueses foram “semeadores” de cidades irregulares nascidas e criadas no litoral.
O quinto capítulo, “O homem cordial”, aborda as consequências do desenvolvimento da urbanização, que acarretaria um desequilíbrio social, cujos efeitos permanecem vivos ainda hoje. 
O título do capítulo não pressupõe bondade, mas o predomínio dos comportamentos de aparência afetiva não necessariamente sinceras nem profundas.
O sexto capítulo, “Novos tempos”, estuda consequências dos aspectos dispostos anteriormente na configuração da sociedade brasileira, a partir de 1808 com a vinda da Corte portuguesa, que causou o primeiro choque nos velhos padrões coloniais.
O sétimo e último capítulo, “Nossa revolução”, sugere como a dissolução da ordem tradicional ocasiona contradições não resolvidas, que nascem no nível da estrutura social e se manifestam no das instituições e ideias políticas.
Raízes do Brasil é uma obra fundamental para o estudo sociológico e científico brasileiro, que vai buscar as origens culturais do país em Portugal, no latifúndio escravocrata e na família patriarcal rural. 
É importante lembrar que o Brasil contemporâneo ao que o autor se refere é o da década de 30. Por isso, nos dias de hoje deve-se ler e analisar a obra com cuidado para que não sejam cometidos anacronismos, dificultando a compreensão da importância que a obra traz para o estudo da história do país. 
Consiste em leitura obrigatória para os estudantes e cientistas que buscam compreender as raízes brasileiras e sua própria cultura.
fontes:  (1) Blog Sociologia & Antropologia
             (2) Portal Investidura

quinta-feira, 19 de março de 2015

Why the BRICS will remain an important force in world affairs in 2015 and beyond


























The Diplomat
17 Mar 2015

Oliver Stuenkel is an assistant professor of International Relations at the Getúlio Vargas Foundation (FGV) in São Paulo and the author of a new book The BRICS and the Future of Global Order. He recently spoke with Justin McDonnell about the role of the BRICS in the international system in 2015 and beyond.
Why are the BRICS important in 2015?
Despite the economic crises in Russia, Brazil and South Africa, the BRICS grouping remains by far the most important political grouping without Western participation. For leaders from Brazil, India, Russia and South Africa, the 7th BRICS Summit, to be held in Russia in July, is the most important diplomatic event of the year. 
The grouping’s continued strength and capacity to innovate – marked by frequent high-level meetings and the creation of the New Development Bank (NDB) – shows that Western analysts have generally been wrong in their assessments that the BRICS countries were too different from each other to agree on anything. 
Considering that the first BRICS’ leaders summit took place only six years ago, it is notable how much the grouping has achieved, particularly when it comes to intra-BRICS ties. For example, in a controversial move, the BRICS jointly criticized the West for attempting to exclude Russia from the G20, and their stance is likely to protect Russia for complete economic and political isolation. 
The BRICS grouping has thus turned into a key element of international affairs. And yet, both Western media policy analysts still know very little about the topic.
Are the BRICS a force for good in the world or simply an obstructionist bloc creating a more fragmented system?
Above all, the BRICS grouping has been very important in strengthening ties between its members, which have been traditionally weak. For example, despite China being Brazil’s most important trading partner, Brazilian society and government still know very little about China. 
The BRICS grouping is an important mechanism to help correct that, through providing an institutionalized yearly meeting between the presidents, ministers of Foreign Affairs, Education, Agriculture, Health, National Security, and many other areas. In the same way, there are now regular meetings between think tanks, mayors and academics, who had previously very little knowledge of each other. 
While such things take time, the grouping has been an important element in slowly adjusting each countries’ overall perspectives to a more multipolar world.
None of these activities or the BRICS’ joint positions in global affairs have been directed against the United States or Europe. Of course, correcting the distribution of votes at the IMF and the World Bank has led to resistance in Washington and Brussels, but they will ultimately strengthen existing institutions by making them more legitimate. 
The creation of the New Development Bank the Contingency Reserve Agreement (CRA) are not meant to weaken existing institutions, in the same way that the African Development Bank does not rival the World Bank. The CRA is embedded in the IMF-led system, so worries that the BRICS constitute a direct and immediate challenge to the existing order are premature.
U.S. opposition or suspicion of such structures underline how insincere U.S. foreign policy makers’ calls on rising powers to become “responsible stakeholders” is – after all, there are few better examples of emerging powers “stepping up to the plate” than providing billions of dollars for infrastructure development in the developing world. 
While surprising to some in Washington, it is obvious that rising powers want to assume responsibility on their own terms rather than accepting the rules and norms established by U.S.-led institutions.
It looks like sufficient steps are being made to bring the New Development Bank (NDB) into operation by 2016. What implications will that have for the global financial landscape as well as interaction with established global institutions?
The New Development Bank is merely one of several new initiatives – most of which are Chinese-led – that will slowly help adapt global structures to the new reality of multipolarity. Since all the BRICS countries continue to fully support existing institutions, immediate implications will be limited. 
Yet, the successful creation of alternative banks provides emerging powers with more leverage to accelerate their demands in the World Bank and the IMF, since they can, in theory, threaten to abandon existing structures. The creation of the NDB thus points to a future with a larger number of important institutions that are not Western-led.
Russia will hold the seventh BRICS summit this July in Ufa. The host nation gets to set the agenda. Given the collapse of the ruble, falling oil prices, and weakening ties with the EU and the U.S. over the Ukraine crisis, what might we expect Russia to bring to the table?
Increasingly anti-Western, Russia will introduce a series of measures during the summit discussions that are likely to generate strong criticism in the West, such as arguing for the UN’s International Telecommunication Union (ITU) to replace the U.S. government as the ICANN overseer. Many critics of this idea say that it would allow authoritarian regimes to challenge the open Internet. 
China is supportive of the idea, and both India and South Africa have expressed their dissatisfaction with the status quo, even though their position is not as clear as Russia’s. Brazil, however, is unlikely to go along, considering its leadership on the matter at the 2014 NetMundial in São Paulo.
In several other areas, Russia may seek to politicize the BRICS meeting further and use it as an anti-Western platform. That strategy will cause resistance among the other members that have no interest in unnecessarily antagonizing Washington. 
In fact, Brazilian foreign policy makers will be careful not to admit any overly strongly worded language in the final summit declaration that may imperil a key goal for Brasília in 2015: repairing frayed ties with the United States. Even without imposing his Internet-related views on the other BRICS countries, the summit will be a success for Vladimir Putin. 
Within a few days, the Russian president will host not only the BRICS leaders, but also heads of state of the Shanghai Cooperation Organization (SCO). One year after the Winter Olympics, Russia will continue to successfully resist Western attempts to turn it into a pariah. Finally, further details about the launch of the NDB will be released.
What can the BRICS do to encourage a peaceful solution to the crisis in Ukraine and help Russia return to a more stable economy?
In a clear choice for realpolitik, the BRICS countries adopted a passive stance vis-à-vis the crisis (essentially protecting Russia from complete isolation), and they have been handsomely rewarded for it. 
Russian imports from Brazil, India and China have grown since the beginning of Western sanctions. The historic gas deal between China and Russia had been years in the making, but China clearly benefitted from the Russia’s lack of other options. Western attempts to isolate countries such as Russia drive the new pariahs into the Chinese orbit without generating any significant cost for Beijing. 
The BRICS are thus helping Russia prevent an even bigger economic fallout or a product shortage at home. At the same time, they have played virtually no role in helping find a peaceful solution to the crisis in Ukraine. 
Particularly from China’s point of view, current global dynamics are almost ideal: Forced to focus on Russia, the United States pays only limited attention to China’s rise and increasingly global projection, allowing Beijing to remain under the radar for more time. Critics are of course right to point out that in this specific case the BRICS are not playing a constructive role that could help end the conflict.
These countries are very different from one another on various fronts and issues. Isn’t forging a cohesive vision a very serious challenge, if not downright impossible?
For most observers the BRICS is too disparate to be a significant category. In the international media, the BRICSS have therefore been routinely described as “a disparate quartet,”  a “motley crew,”  or as an “odd grouping.” 
The idea of the BRICS as a bloc, according to this narrative, was deeply flawed and the BRICS member countries were too diverse to ever form a coherent group. Yet a key uniting element was often overlooked: All four initial member countries (prior to South Africa’s accession in December 2010) have global ambitions – a global project, however vaguely defined, voiced frequently. 
They also have a sense of entitlement absent in other emerging powers such as Mexico or Indonesia (Turkey may be the only exception), which makes them articulate these visions with a sense of naturalness that often baffles Western observers. The underlying message here is: We should have a key role in global affairs not because of what we do, but who we are. 
It is here that the BRICS grouping is indeed an interesting political category – for example, there are no emerging powers outside of it that have a systematic engagement with the UN Security Council, either as permanent members or committed candidates. As Celso Amorim, Brazil’s former Foreign Minister, argued, it was “time to start reorganizing the world in the direction that the overwhelming majority of mankind expects and needs.”  
To his mind, the BRICS countries were to play a key role in that process.
It is of course true that the BRICS disagree on many issues – as would be expected from five unique countries in different parts of the world. It is also true that they regard themselves as rivals, and Sino-Indian ties are the most complicated of all. 
Yet frequent disagreement does not keep countries from cooperating or being part of the same clubs. Germany and Italy are fiercely opposed when it comes to UN Security Council reform, and Germany and France sharply disagreed over military intervention in Libya. 
The United Kingdom and France, for their part, held opposing views on such important matters as the military intervention in Iraq. The United States opposed China’s Asian Infrastructure Investment Bank (AIIB), and Britain was the first Western country to join it. And yet, not a single analyst argued that these disagreements showed that NATO or the EU were bad ideas.
If you could see as far ahead as 2030, do you think the global governance structure will continue to look and be led by established Western powers or will the BRICS unified efforts reshape the international system in a way that more appropriately reflects and addresses their norms, values, and priorities?
Policy makers in the Global South will continue to invest in Western-dominated structures and push for their reform. Yet provided that China and India (the two dominant actors in the BRICS grouping) can prevent domestic political turmoil and maintain moderate growth in the coming years, they will quietly expand networks in many different areas, ready to engage those who do feel today’s institutions fail to satisfy their needs, or those who seek to increase autonomy from the United States. 
Several of the already existing alternative institutions have arguably positive effects on development, mainly in Asia and Africa. So I think we’ll see a far more diversified global order, with the presence of strong Chinese-led institutions that will play a strong role in global affairs. 
Yet Western and non-Western institutions will not necessarily be opposed to each other. China will continue to be part of the Western-dominated World Bank, and several Western powers will follow Britain’s lead and join the Chinese-led Asian Infrastructure Investment Bank.
While emerging powers agree with fundamental issues such as international institutions, cooperative security, democratic community, collective problem solving, shared sovereignty, and the rule of law, they consider, to differing degrees, today’s order as flawed and frequently undermined by the system’s creators. 
Brazil, South Africa and India in particular oppose the implicit and explicit hierarchies of international institutions and the many privileges often enjoyed by great powers in international deliberations. 
China, while more privileged, equally resents the U.S. advantages hard-wired into today’s order. It is thus skepticism about the operationalization of liberal norms, rather than the goals and values that guide them that shapes the BRICS’ relationship to today’s global order.
fonte: The Diplomat

domingo, 15 de março de 2015

[ Book Review ] Casa-Grande & Senzala

Publicado originalmente no site dialogodiplomatico.blogspot.com.br. 

Possivelmente uma das melhores resenhas sobre Casa-Grande & Senzala. 

Boa leitura !

Introdução

Casa Grande & Senzala é talvez o mais vasto painel da nacionalidade brasileira que já se produziu. 

Obra ambiciosa, empreende de forma notável a interpretação da sociedade brasileira, a explicação de como o colonizador português, vencendo todos os obstáculos que o clima, a natureza, a escassez de trabalho lhe impunham, fundou aqui uma sociedade moderna, "a maior civilização dos trópicos".

Grandiosa não apenas pelo tamanho, mas, principalmente, pelo conteúdo, que desce a um nível de descrição e detalhismo impressionante, Casa Grande & Senzala foi, em vários aspectos, uma obra seminal. Clássico da sociologia e do ensaísmo brasileiro, a obra até hoje continua despertando debates. 


Para muitos, a maior interpretação da sociedade brasileira de todos os tempos, ícone da nacionalidade brasileira. Para outros tantos, uma peça extremamente bem-construída do conservadorismo das elites que construíram o País e que, enfim, por meio da obra, legitimaram, no mais puro estilo maquiavélico, os meios de que lançaram mão na construção de sua obra civilizatória.

O autor

Fato é que nenhuma obra pode ser considerada de forma isolada em relação a seu autor. E Gilberto Freyre, tal como sua obra-prima, foi um homem multifacetado, e, por que não dizê-lo, ambíguo. Filho da aristocracia decadente de Pernambuco, Freyre nasceu no Recife em 1900, época em que já as usinas avançavam em detrimento dos engenhos, processo de corrosão do antigo poder do senhor de engenho brilhantemente descrito e analisado nos romances de José Lins do Rego. 


No final dos anos 1910, Freyre deixa o Brasil e se muda para os Estados Unidos, onde cursaria universidades no Texas e em Nova York. 

Foi nos Estados Unidos que iniciou sua vida intelectual e acadêmica e que conheceu as obras e os autores que o influenciariam por toda a vida - com destaque para aquele que ele mesmo chamou certa vez de mestre, o antropólogo Franz Boas.

Foi com Boas que Freyre disse haver aprendido a distinção que seria fundamental para a compreensão da sociologia freyriana: a distinção entre raça e cultura. 


Numa época em que o racismo, apoiado nas idéias naturalistas, ganhava força no mundo todo e se imiscuía com a política, na prática e na ideologia do imperialismo tanto quanto no florescimento das idéias (proto)fascistas, a dualidade raça-cultura era quase uma "heresia" acadêmica. 

E seria a esta "heresia" que Freyre se apegaria em sua empresa mais grandiosa: o entendimento do Brasil. Conservador pela origem aristocrática, mas liberal pela filiação acadêmica: eis apenas uma das muitas contradições que marcam autor e obra, Freyre e Casa Grande & Senzala.

O contexto intelectual

Publicada em dezembro de 1933 no Rio de Janeiro, Casa Grande & Senzala foi um dos três grandes ensaios que se publicaram sobre o Brasil em menos de uma década, ao lado de "Raízes do Brasil", de Sérgio Buarque de Holanda (1936), e de "Formação do Brasil Contemporâneo", de Caio Prado Jr. (1942). 


A grande "tríade" da interpretação do País é marcada, no entanto, por perspectivas, visões e métodos próprios. Caio Prado adota uma abordagem histórico-economicista e procura explicar a formação da sociedade brasileira como etapa e conseqüência do processo de acumulação de capital em nível global. 

Sérgio Buarque prefere uma interpretação sociológica, com base em uma análise das diferentes formas pelas quais se deram as empresas colonizadoras de Portugal e Espanha no Novo Mundo e as marcas que deixaram nas nacionalidades que delas se originaram. 

Gilberto Freyre flutua entre a sociologia e a antropologia, com preferência sensível por esta última. Para ele, a interpretação de uma sociedade exige a intepretação de seus componentes - os indivíduos -, no nível de seus comportamentos, seus valores, seus costumes, suas relações (íntimas, inclusive - se não principalmente), suas crenças, sua educação, sua vida familiar, seu lazer - em outras palavras, sua cultura.

Confrontando as idéias naturalistas, que atribuíam ao clima e às raças que se instalaram nos trópicos as mazelas de que sofria o País, Freyre posiciona-se pela cultura como elemento fundamental de interpretação da construção de uma sociedade, acima até mesmo da economia e da política ("não nos interessa [...] senão secundariamente, neste ensaio, o aspecto político ou econômico da colonização portuguesa do Brasil"). 


Neste sentido, Freyre era um inovador, na medida em que, de forma corajosa, rompia com uma tradição intelecutal herdada da antropologia européia, que estancava as raças como superiores e inferiores e, eivada do naturalismo e de um tipo de darwinismo deturpado, atribuía ao "determinismo do meio" a função explicativa para os fenômenos sociais - inclusive o 'sucesso' e o 'fracasso' de civilizações, povos e nações.

A dialética freyriana

A exploração de antagonismos é o método de que Freyre lança mão na construção da temática de Casa Grande & Senzala - o próprio título da obra revela o antagonismo fundamental. 


Pouco afeito ao rigor teórico e ao cientificismo, Freyre prefere o método ensaístico, quase literário, numa obra rica em passagens que bem poderiam ter sido extraídas de um romance. Dando rigor à fluidez de sua obra, no entanto, está o método dialético, que salta aos olhos de forma espontânea, sem que seja necessária uma análise mais aprofundada. 

O próprio autor a revela: a formação da sociedade brasileira é "um processo de equilíbrio de antagonismos. 

Antagonismos de economia e de cultura. 

A cultura européia e a indígena. A européia e a africana. A africana e a indígena. A economia agrária e a pastoril. A agrária e a mineira. O católico e o herege. O jesuíta e o fazendeiro. O bandeirante e o senhor de engenho. O paulista e o emboaba. O pernambucano e o mascate. O grande proprietário e o pária. O bacharel e o analfabeto. 

Mas predominante sobre todos os antagonismos, o mais geral e o mais profundo: o senhor e o escravo".

Talvez não seja exagero detectar aí a influência da dialética hegeliana, cujo exemplo mais citado - pelo próprio Hegel, aliás - é a dialética do senhor e do escravo. A dialética não é apenas a confrontação de opostos, de antagonismos; é, antes, uma relação pela qual cada oposto se vê reforçado em sua natureza e essência pelo outro; é pela relação com o outro que eu me descubro a mim mesmo, tal como sou. 


O senhor é senhor apenas porque existe um escravo - sem o escravo, não existe senhor, e vice-versa. O interessante da dialética hegeliana é que não apenas a essência se vê reafirmada pelo oposto, mas também se vê, ela própria, negada. 

Assim, por exemplo, segundo Hegel, o senhor, ao precisar do escravo para reafirmar seu status de senhor, torna-se dependente do escravo, até o limite em que, pelo menos no plano ideal, torna-se escravo de seu escravo - e o escravo, senhor de seu senhor. 

Uma leitura de Freyre, no entanto, revela que essa segunda dimensão da dialética hegeliana está ausente. Na obra freyriana, assim como na história da formação da sociedade brasileira, os papéis de dominadores e dominados estiveram sempre claramente delimitados.

Mas se a sociedade brasileira formou-se por e com antagonismos, não teriam esses antagonismos levado ao conflito inevitável entre opostos? Freyre mesmo responde: "entre tantos antagonismos, [têm-se] condições de confraternização e mobilidade sociais peculiares ao Brasil: a miscigenação".

As três raças

O núcleo de Casa Grande & Senzala é a descrição e a análise minuciosas que Freyre faz sobre a participação do branco português, do negro escravo e do indígena ameríndio na formação da sociedade brasileira. 


Para Freyre, a miscigenação é o fator essencial para explicar-se o sucesso do colonizador português em sua empresa nos trópicos e a conseqüente construção da civilização brasileira. Rüdiger Bilden, em comentário sobre a obra de Freyre, afirma que o tripé fundamental da colonização do Brasil pelos portugueses foi a união entre latifúndio, escravidão e miscigenação.

A flexibilidade e a adaptabilidade da nação portuguesa foram os fatores básicos que permitiram ao colonizador "triunfar onde outros europeus falharam". 


Chegados ao Brasil e cientes de que, nos trópicos, a colonização exigiria a exploração da terra - diferentemente da colonização por feitorias nas Índias -, os primeiros colonizadores sofreram de uma carência que poderia provar-se fatal para o sucesso da empresa colonial: a ausência de mulheres. 

Afeitos ao contato com outros povos e a sua influência - árabes, africanos, europeus de origem latina ou céltica, judeus da diáspora -, os portugueses teriam desenvolvido, segundo Freyre, a quase ausência do preconceito de raça. Este foi o fator fundamental que lhes facilitaram tomar para si as mulheres indígenas com a finalidade de procriar e gerar a prole que se incumbiria de povoar, explorar, defender e expandir a terra. 

Foi sobre a cunhã, oferecida ao português "de pernas abertas", que o colonizador exerceu sua primeira e fundamental relação de dominação - fundamental porque seria a mulher indígena a base da família brasileira, e o mestiço (mameluco), o agente por excelência da colonização.

À mulher indígena coube estruturar a família brasileira, pelo menos nas primeiras décadas da colonização. Seu papel, obviamente, não se resumiu à reprodução. 


Responsável pela educação de sucessivas gerações de brasileiros, a mulher indígena, segundo Freyre, impregnou suas marcas nas relações familiares, nos hábitos, nos costumes, na alimentação, nas brincadeiras infantis, na língua - em virtualmente toda dimensão da vida individual e familiar da sociedade brasileira. 

O homem indígena, por sua vez, foi prontamente aliciado ou forçado ao trabalho. 

O ameríndio, no entanto, pouco acostumado ao trabalho sedentário da lavoura - o índio dedicava-se à caça e ao trabalho manual artesanal, mas não à agricultura, à exceção de formas muito rudimentares de cultivo - logo foi considerado como "preguiçoso" e "indolente", visão que tanto Freyre quanto Caio Prado derrubam, ao argumentar que o índio apenas não estava acostumado ao trabalho sistemático da lavoura - preferia a liberdade da caça, da navegação, do nado, da manufatura. Seu papel na colonização foi, não obstante, crucial:
 

"índios e mamelucos formaram uma muralha movediça, viva, que foi alargando em sentido ocidental as fronteiras coloniais do Brasil, ao mesmo tempo que defenderam, na região açucareira, os estabelecimentos agrários dos ataques de piratas estrangeiros".

No processo de colonização dos trópicos, se a cabeça foram os portugueses e os pés, os índios e mestiços, os braços foram, sem sombra de dúvida, os negros escravos. Vários foram os fatores que levaram o colonizador a optar pelo braço escravo africano: a falta de aptidão do indígena é um deles, mas talvez não o mais importante. 


Caio Prado afirma que os portugueses não apenas estavam afeitos à escravidão no norte da África (onde marcavam presença desde pelo menos a navegação a Ceuta, em 1415), como também tinham a oportunidade de transformá-la numa lucrativa atividade mercantil. 

Na lógica do mercantilismo imperialista, o tráfico de seres humanos se transformaria numa das atividades que sustentariam a colonização do País. Em mais de três séculos (1526 - 1850), mais de 4 milhões de negros aportaram na terra brasilis e aqui foram dizimados sob o fogo da fornalha, o açoite do capataz, o tronco do pelourinho - e, no caso das mulheres escravas, sob a luxúria dos senhores e a crueldade das sinhás.

Desnecessário dissertar sobre o papel do homem escravo na colonização do Brasil. Foi ele a força motriz que movimentou a economia açucareira e cafeeira responsável pela sustentação do projeto colonial. 


Nem é esse, tampouco, o objetivo de Freyre, uma vez que, como salientado, o autor está preocupado com os aspectos antropológicos e sociológicos da formação da sociedade brasileira, e não com os aspectos econômicos. Para compreender aqueles, importa mais considerar o papel da mulher.

A mulher escrava é uma das personagens principais da formação da família e da sociedade brasileiras. Substituindo à mulher indígena, ela passou a ser o objeto de dominação sexual do senhor, que não a exercia mais com o intuito fundamental de reproduzir-se, mas, sim, para a satisfação de sua luxúria. É fundamental compreender que, para Freyre, o papel sexual da escrava foi tão importante quanto o papel laboral do escravo. 


A miscigenação continua central - mas, para além dela, é necessário considerar a outra função que a escrava acabou por desempenhar na colônia brasileira, essencial para se entender a abordagem de Freyre em relação à escravidão: a mulher escrava foi o elo, a ponte entre os dois mundos dialeticamente relacionados da casa grande e da senzala.

"Intoxicação sexual"

Se para Freyre a miscigenação é o elemento central da formação da sociedade brasileira, é natural que a análise e a minuciosa descrição das relações sexuais ocupe um lugar de destaque em Casa Grande & Senzala. Para Freyre, "o ambiente em que começou a formação brasileira foi de grande intoxicação sexual". 


Se à mulher indígena coube a primazia na formação da família brasileira e da base humana que ajudaria a colonizar os trópicos, foi a mulher escrava negra que por três séculos se renderia ao poder e à luxúria dos senhores.

Atribuíam-se ao clima quente a licenciosidade, a depravação e a subordinação que marcaram a vida sexual da família patriarcal colonial - no melhor estilo do dito "não há pecado abaixo do Equador". Numa sociedade fortemente conservadora e pia, em que as mulheres brancas resguardavam suas "virtudes", era com negras e mulatas que os senhores satisfaziam seus desejos e impulsos. 


Nas palavras de Freyre, "a virtude da senhora branca apóia-se em grande parte na prostituição da escrava negra". Escolhida dentre as mais jovens, belas e fortes, as negras que serviam na casa grande - as mucamas - foram o elo entre o mundo do senhor e o do escravo, o vetor com o qual penetraram no seio do patriarcado aristocrático brasileiro os "modos", os "valores", o "molejo", a "doçura", a "fala", o "talento", o "banzo" dos escravos. 

A mucama, a ama de leite, a quituteira, a amante foram as mulheres que fecundaram, geraram e criaram a família brasileira. Brancos e brancas, sinhôs e iaiás tinham com a mulher negra momentos fundamentais de sua formação: a amamentação, a alimentação, o cuidado materno que muitas vezes era substituído pelo carinho da ama, as brincadeiras, a iniciação sexual, a vida sexual não-conjugal, as confidências, as amizades, as aventuras.

A presença do negro no interior da casa grande ensejou um ambiente que, para Freyre, teria adocicado e abrandado a crueldade inerente ao sistema escravocrata. Esse é, a bem da verdade, um dos pontos mais polêmicos da obra do sociólogo.

A presença das mulatas e dos "moleques" na casa grande teria sido fator decisivo, na visão de Freyre, para o abrandamento da relação de posse que caracterizava a relação entre senhor e escravo. 


Diferente do que ocorrera em outras áreas de escravidão, especialmente no sul dos Estados Unidos – que Freyre, aliás, toma como referencial para comparação em várias passagens da obra –, aqui à escravidão teria sido acrescentado um elemento de "doçura", de "proximidade", de "amolecimento" da relação senhor e escravo - cujo fundamento indiscutível é a violência. 

O senhor teria acolhido o negro no seio de sua família, e a proximidade desses dois mundos antagônicos da casa grande e da senzala, aliada à quase ausência de preconceito de cor na natureza do colonizador, foi o fundamento daquilo que muitos analistas da obra de Freyre identificaram como a “democracia racial”.

Não há passagem no livro que mencione o termo "democracia racial". De fato, essa foi uma construção que surge apenas na década de 1940. A idéia sobre a qual se cunhou o termo, no entanto, é da autoria de Freyre. 


"Democracia racial" seria um sistema de relações interpessoais no seio de uma sociedade apoiado na ausência de impedimentos psicológicos e legais à formação de uma unidade étnica por meio da miscigenação, fator central -como visto - em Casa Grande & Senzala. 

A mistura de raças e a suposta ausência de preconceitos raciais (mas não de preconceitos sociais), criadas e reforçadas pela inter-relação entre casa grande e senzala, teriam sido os elementos fundadores da democracia racial no Brasil. Em lugar algum do mundo - ou melhor, com povo algum do mundo que não o lusitano - teria surgido um tal padrão de relacionamentos étnicos e raciais. 

Em relação a essa característica basicamente portuguesa, Gilberto Freyre, em conferência pronunciada em Lisboa em 1937, afirmou que
 

“há, diante desse problema [...] da mestiçagem [...] uma atitude distintamente, tipicamente, caracteristicamente portuguesa, ou melhor, luso-brasileira, luso-asiática, luso-africana, que nos torna uma unidade psicológica e de cultura fundada sobre um dos acontecimentos, talvez se possa dizer, sobre uma das soluções humanas de ordem biológica e ao mesmo tempo social, mais significativas do nosso tempo: a democracia social através da mistura de raças” (Freyre: 1938, 14).

Freyre posteriormente desenvolveria o conceito de "democracia étnica", que em verdade resume a idéia de "democracia racial". Vale dizer, no entanto, que o sociólogo pernambucano odesenvolve como contraponto à propagação das idéias nazi-fascistas; se uma das manifestações do totalitarismo fascista era o racismo e, no ideário nazista, a defesa da superioridade de raças, seu antídoto era a democracia "social" e "étnica", que se opunha à democracia meramente política, arremedo de regime democrático e livre. 


Em outra conferência, pronunciada no Recife em 1940, Freyre identifica “o imperialismo da democracia sobre trechos do Brasil ainda indecisos entre essa tradição genuinamente nossa [a "democracia étnica"] e o racismo violentamente anti-brasileiro [sic], o nazi-jesuitismo [sic], o fascismo sob disfarces sedutores, inclusive o da "hispanidade" (Freyre: 1944, 9).

O conceito de democracia étnica é apenas uma outra forma de expressão da democracia racial. O próprio Freyre utiliza este último, numa terceira conferência, pronunciada no Rio de Janeiro em 1962, quando se refere "[à] já brasileiríssima prática da democracia racial através da mestiçagem" (Freyre: 1962, s/p). 


Seja como for, percebe-se que é uma idéia calcada na mestiçagem, prática aqui iniciada com a própria chegada do colonizador e reforçada com o entrelaçamento dos mundos da casa grande e da senzala.

A crítica moderna não poupa ataques ao que chamam de "mito da democracia racial", apontando para a realidade brasileira, em que negros e brancos não convivem exatamente sob iguais condições de vida e oportunidades de ascensão social. 


Se houve a mestiçagem - e foi ela elemento importante na formação da identidade nacional -, não parece ter sido ela suficiente para fundar na sociedade brasileira uma verdadeira democracia de raças e etnias...

Conclusão

Apenas a paixão de Freyre pela descrição e pelo detalhe, colocada a serviço de uma empresa tão árdua quanto apresentar um painel da formação da família e da sociedade brasileira, poderia ter rendido uma obra tão espetacular como Casa Grande & Senzala. 


Escrita há três quartos de século, sua atualidade é assombrosa, não apenas porque, como sociedade em constante transformação e ainda jovem - quando comparada a culturas e civilizações milenares -, o Brasil precisa conhecer-se e reconhecer-se constantemente, mas, principalmente, porque aborda questões e aspectos de nossa formação ainda não resolvidos e que, pelo contrário, continuam latentes em nossa trajetória histórica contemporânea. 

Pode-se ou não concordar com muitas das idéias defendidas por Freyre, como a "democracia étnica" ou "racial", o sucesso da colonização portuguesa, a civilização dos trópicos, a quase justificativa da escravidão, cujo trecho significativo merece transcrição, e cujo determinismo chama a atenção, em um autor que se contrapunha a essas idéias que, no esteio do pseudo-darwinismo e do naturalismo, estavam em voga à época:
 

"No caso brasileiro, porém, parece-nos injusto acusar o govenro português de ter manchado, com a instituição que hoje tanto nos repugna, sua obra grandiosa de colonização. 

O meio e as circunstâncias exigiriam o escravo... Para alguns publicistas foi um erro enorme [a escravidão]. Mas nenhum nos disse até hoje que outro método de suprir as necessidades do trabalho poderia ter adotado o colonizador português no Brasil... 

Tenhamos a honestidade de reconhecer que só a colonização latifundiária e escravocrata teria sido capaz de resistir aos obstáculos enormes que se levantaram à civilização no Brasil pelo europeu. 

Só a casa grande e a senzala. O senhor de engenho rico e o negro capaz de esforço agrícola e a ele obrigado pelo regime de trabalho escravo".

O fato, porém, é que Casa Grande & Senzala é referencial obrigatório para se conhecer o Brasil e a formação de sua sociedade. O país que temos hoje é conseqüência direta da existência necessariamente conjunta desses dois mundos, a casa grande e senzala. 


Para o bem e para o mal - cabe a cada um reflitir - somos herdeiros do Brasil patriarcal e escravocrata vasculhado e desvendado por Freyre. 

Se o clássico é aquela obra que continua referenciando o presente mesmo tempos e tempos depois de haver sido produzida, Casa Grande & Senzala é, sem dúvida, um dos maiores clássicos da literatura brasileira de todos as épocas.

N.A.: Os conceitos de “raça”, “etnia”, “negro”, “branco”, “mulato”, “mameluco” e outros termos correlacionados são usados, neste artigo, sem qualquer juízo de valor e/ou pretensão científica. Sabe-se que, na atualidade, a antropologia, a biologia e a sociologia questionam a utilidade desses conceitos como categorias descritivas e analíticas das sociedades humanas e dos indivíduos.

N.A. 2: Casa Grande & Senzala conta com dezenas de edições lançadas ao longo dessas quase oito décadas, e mais de uma foi utilizada para colher as citações aqui reproduzidas, razão pela qual optou-se por não colocar o número da página em que estão.


Outras obras de Freyre consultadas:


Freyre, Gilberto (1938). Conferências na Europa. Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Saúde.
___________ (1944). “Um engano de José Lins do Rego”. O Jornal, Rio de Janeiro, 25 de janeiro de 1944.
___________ (1962). O Brasil em face das Áfricas negras e mestiças. Rio de Janeiro, Federação das Associações Portuguesas.


Outras fontes:
Bresser-Pereira, Luis Carlos (2000). Relendo Casa Grande e Senzala. Paper on-line disponível em http://www.bresserpereira.org.br/view.asp?cod=548.


Guimarães, Antonio Sérgio Alfredo (2001). Democracia Racial. São Paulo, Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Disponível em http://www.fflch.usp.br/sociologia/asag/Democracia%20racial.pdf.


fonte: Dialogo Diplomático

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