domingo, 27 de dezembro de 2015

O 2015 de Mauro Vieira no MRE



























Em meio a crise, chanceler começa a recolocar diplomacia nos trilhos

Folha SP
27 dez 2015

Em janeiro de 2015, Mauro Vieira assumiu como o terceiro chanceler de Dilma Rousseff em meio a uma crise de orçamento, um ministério sem prestígio internamente e um Brasil cada vez menos relevante no cenário internacional.

Agora, chega ao fim de seu primeiro ano à frente do Itamaraty com um panorama menos drástico nas contas da pasta, mas também com poucos avanços na retomada de uma política externa de maior expressão, diante do acirramento da crise no país. 

Internamente, um plano de racionalização de gastos permitirá à pasta, segundo o ministério, encerrar 2015 sem os atrasos nos pagamentos de aluguéis e de auxílio-moradia no exterior que foram constantes durante todo o ano.

Lá fora, Vieira conseguiu, segundo especialistas, começar a fazer a política externa do país se mover novamente.

Para isso, ampliou sua presença no exterior - foi o chanceler que mais viajou desde 2011, o primeiro ano de Antonio Patriota. Em um momento em que as prioridades do Planalto eram outras, Vieira fez cerca de 75% de suas 53 viagens sem a presidente.

A maior parte de sua ação no exterior foi com visitas bilaterais, o que demonstra um esforço em tentar promover ou retomar relações com outros países.

"No momento, é o que dá para fazer. Não podemos ter uma agenda enfática porque temos pouca bala na agulha", observa Luiz Felipe Lampreia, chanceler no governo FHC de 1995 a 2001. 

"O Mauro atuou numa posição discreta para recuperar a presença brasileira e, sobretudo, o Itamaraty internamente, que tinha sido muito golpeado, particularmente em termo de recursos."

Para Matias Spektor, professor da FGV e colunista da Folha de SP, um dos pontos positivos da gestão de Vieira foi retomar a agenda de viagens. 

"Embora não tenha resultado em nenhum grande acordo, ao menos voltou a trazer a diplomacia brasileira para os trilhos, dos quais tinha saído por causa das crises econômica e política", afirma. 

Em dois avanços importantes, o Brasil superou impasses que travavam a agenda com EUA e Bolívia desde 2013. 

A viagem da presidente a Washington em junho marcou a reaproximação dos países após o escândalo da espionagem dos EUA a autoridades brasileiras dois anos antes.

No caso boliviano, o envio de um novo embaixador a La Paz após dois anos da fuga do senador Roger Molina da embaixada brasileira foi fundamental para reatar o diálogo mais fluido com o vizinho.

O movimento só foi possível após a concessão do refúgio, pelo governo brasileiro, ao senador, e a conclusão do inquérito sobre a conduta do diplomata Eduardo Sboia, suspenso por 20 dias por trazer Molina ao Brasil.

Outros pontos tidos como positivos foram o início das negociações para ampliar o acordo comercial com o México e o périplo de Vieira por oito países da África subsaariana - em pouco mais de um ano no posto, seu antecessor, Luiz Alberto Figueiredo, só foi ao continente para acompanhar a presidente no funeral de Nelson Mandela, em 2013. 

Venezuela

A atuação discreta de Vieira - e do então colega argentino, Héctor Timerman - , contudo, não foi suficiente para fazer com que Venezuela e Colômbia escolhessem o Brasil (e a Argentina) para mediar o diálogo sobre o conflito na fronteira entre os dois. Caracas e Bogotá acabaram escolhendo Uruguai e Equador. 

O Itamaraty foi ainda criticado por não se manifestar publicamente em relação às prisões de políticos na Venezuela e por não respaldar a posição do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) sobre a missão da UNASUL para observar as eleições em 6 de dezembro.

O TSE decidiu não participar da missão após um veto não oficial de Caracas a Nelson Jobium. O Itamaraty acabou enviando um diplomata com a missão, o que diminuiu o mal-estar com Caracas. 

Outros imbróglios envolveram a decisão do governo de não receber, por oito meses, as credenciais do embaixador indonésio, Toto Riyanto, após a execução de dois brasileiros, e o cancelamento , em cima da hora, da viagem da presidente ao Japão e ao Vietnã. 

Grupos de direitos humanos também apontam como negativa a abstenção do Brasil sobre texto condenando violações no Irã - a primeira desde 2011 - e renovando o mandato do relator da ONU para o país. 

"Que tipo de diplomacia comprometida com os direitos humanos toma decisão dessas com base em promessas ?", questiona Camila Asano, da ONG Conectas, referindo-se à justificativa brasileira de que Teerã havia se comprometido em receber outros relatores da ONU no país. 

2016

Para o professor José Augusto Ghilhon Albuquerque,da USP, diante da crise, o próximo ano exigirá de Vieira trabalho semelhante ao que realizou neste ano. "Neste caso, o chanceler tem um papel de encarregado de negócios. O que ele pode fazer é tocar assuntos correntes", diz. 

"Será uma agenda modesta, não tem como ter agenda ambiciosa se não tem motor para decolar esse avião", concorda Lampreia. 

Para especialistas, o foco de Vieira deve se manter sobre a transição nos EUA, a nova conformação da região e do Mercosul, com a ascensão de Mauricio Macri na Argentina, e em não perder espaço no mundo. 

fonte: Folha SP
   
  

EEm E

sábado, 19 de dezembro de 2015

Principais desafios da Política Externa Brasileira em 2016





















Oliver Stuenkel 
16 dez 2015

Selecionar apenas dez pontos entre uma imensidão de desafios que o Brasil enfrenta é, claro, uma tarefa praticamente impossível e fadada a omitir tópicos cruciais. Esta lista, portanto, não pretende ser exaustiva (não contempla temas chave como meio ambiente, ajuda ao desenvolvimento e não proliferação), mas busca estimular o debate sobre um ano desafiador que temos pela frente.

1. Ajudar a consertar a economia


A economia do Brasil está em frangalhos e nenhuma política internacional no mundo poderia consertá-la antes de reformas domésticas profundas – ainda assim, uma política externa sabiamente formulada pode contribuir de modo importante. Isso implica dar nova vida ao Mercosul e buscar ativamente acordos de livre comércio (confira o item 5), tornar mais transparentes e eficazes os empréstimos do BNDES a estrangeiros e mostrar com clareza aos investidores internacionais como o Brasil pretende sair da desordem econômica em que se encontra (um plano para subir 30 posições no ranking Doing Business, do Banco Mundial, seria um bom começo).

Inclui, também, lutar por financiamentos do Novo Banco de Desenvolvimento, liderado pelos BRICS, retomar o programa de bolsas para estudantes brasileiros no exterior (mas limitando-o a engenheiros), facilitar as regras de imigração, ativamente atraindo imigrantes qualificados (de lugares como a Síria), e eliminar trâmites burocráticos complicados para a obtenção de vistos, de modo a aumentar o número de turistas estrangeiros.

2. Recuperar a liderança regional

Nada simboliza melhor a perda de dinamismo da política externa brasileira do que sua política regional passiva e indiferente. 

Onde a presidente vê a região em cinco, dez ou vinte anos? Qual é o projeto do Brasil em relação à região e como deve ser implementado? O País tenta ter alguma relevância na definição da agenda regional?
Embora o Brasil tenha perseguido uma política regional proativa durante os mandatos de Fernando Henrique Cardoso e Lula, poucos na região entendem hoje o que o Brasil quer. Isso não significa que o Brasil tem que impor suas visões, longe disso. O Brasil é, no entanto, o único país na região com poder convocatório suficiente para articular uma visão comum e criar o estímulo para que ela seja alcançada.

Nos últimos anos, tem havido algumas razões para otimismo. O Brasil, por exemplo, convidou os líderes regionais para se reunir com Xi Jinping, presidente da China, na ocasião de sua vinda ao País para a 6ª Cúpula dos BRICS.O evento poderia ter sido o início de um diálogo sistemático entre líderes da região sobre como lidar com a ascensão chinesa. Essa iniciativa pode ser tomada com muito mais frequência, como já ocorreu no passado – por exemplona formação do Conselho de Defesa da Sul-Americano.

3. Colocar os direitos humanos e a democracia de volta na agenda

Na posição de presidente eleita, em dezembro de 2010, Dilma Rousseff classificou de “medieval” a prática iraniana de apedrejar mulheres condenadas por adultério, criando a esperança de que o Brasil tomaria uma posição mais clara em relação a violações de direitos humanos ao redor do mundo.

Mesmo diplomatas experientes interpretaram o comentário da presidente como um sinal verde para criticarem abusos em outros locais. Contudo, apenas alguns dias depois, o ministro das Relações Exteriores foi duramente advertido pelo assessor especial de Dilma Rousseff, Marco Aurélio Garcia, para que não mencionasse problemas de violações de direitos humanos em Cuba e Venezuela sem a autorização da presidente.

Se algum país na região poderia ter sido mais efetivo ao lidar com a crise democrática na Venezuela, esse país seria o Brasil. Brasília, entretanto, deu ao presidente Nicolás Maduro um cheque em branco para perseguir seus opositores políticos e controlar a mídia e o Judiciário, sem temer a censura internacional.

4. Recuperar a voz perdida do Brasil frente a desafios globais

Quando se trata de temas dominantes das relações internacionais nos últimos 12 meses, como a ascensão do Estado Islâmico, a crise mundial de refugiados ou a guerra civil na Ucrânia, o Brasil raramente ultrapassou o papel de espectador, cedendo espaço para potências tradicionais. 

Brasilia poderia, no entanto, ser muito mais proativa na discussão global sobre como enfrentar de modo eficaz os desafios listados acima e influenciar positivamente dinâmicas – como fez, no nos últimos anos, em relação a intervenções humanitárias, governança na internet, missões de paz, resolução de conflitos e defesa da democracia. Isso requer, primeiramente, estar presente quando esses temas são discutidos – como na anual 

Conferência de Segurança de Munique, da qual o Brasil tem notadamente se ausentado nos últimos anos. Nosso debate internacional está desequilibrado, e não podemos mais resolver desafios globais simplesmente confiando no bom senso de alguns países. 

O dramático fracasso ao enfrentar assuntos chave durante as últimas décadas é um sinal claro de que novos atores devem contribuir para que soluções relevantes sejam encontradas.

5. Buscar mais acordos de livre comércio

Na última década e meia, centenas de acordos comerciais foram registrados na Organização Mundial do Comércio (OMC). O Mercosul, por sua vez, assinou apenas alguns, com mercados de importância limitada. 

As negociações comerciais entre o Mercosul e a União Europeia (UE) são extremamente difíceis e já começaram há 15 anos. Elas estagnaram devido a problemas similares aos que tornaram as negociações da OMC tão complexas: a falta de disposição, por parte da Europa, para expor seus fazendeiros protegidos à competição e o desejo sul-americano de proteger suas indústrias em relação a importações de alta qualidade. 

No Brasil, apesar disso, um número crescente de empresários apoia acordos de livre comércio não apenas com a UE, mas também com os EUA. Eles argumentam que a indústria brasileira poderia competir em igualdade de condições se o governo reduzisse o persistente “custo Brasil”, ao facilitar a cobrança de impostos e melhorar a infra-estrutura. 

Conforme avançam grandes negociações regionais, como a que vem ocorrendo entre UE e EUA, (e o comércio no Pacífico é transformado pelo TPP), não é possível deixar de perceber a possibilidade de um mundo dividido em blocos comerciais. Junto com a Argentina, o Brasil deveria mudar a marcha e se adaptar a essa nova realidade.

6. Convencer a presidente, o Congresso e a população de que política externa importa

O ministro Mauro Vieira (Relações Exteriores) foi bem sucedido ao lidar com os desafios mais emergenciais internos ao Itamaraty (como impulsionar o moral da tropa) desde que assumiu há um ano. Ele deve agora continuar, mesmo em tempos de extrema austeridade, a convencer a presidente e o Congresso de que o Itamaraty requer mais, e não menos, recursos.

Conforme o Brasil almeja defender seus interesses no exterior, o número pequeno de diplomatas impõe limitações em sua capacidade de operacionalizar novas políticas. Estratégias inteligentes desenvolvidas domesticamente podem não obter o impacto desejado devido à falta de oficiais do Ministério das Relações Exteriores para implementá-las.

Negociações bilaterais complexas podem ser prejudicadas se os negociadores de um lado não tiverem acesso adequado a informações em razão da falta de equipe diplomática e conhecimento em solo sobre restrições domésticas que o outro lado está enfrentando.

Finalmente, manter uma embaixada sobrecarregada com poucos funcionários pode enviar um sinal negativo ao país que recebe. Em alguns casos, isso pode gerar mais danos do que não abrir uma embaixada. 

No entanto, a presidente dá pouca importância para a diplomacia, e algumas das principais iniciativas internacionais do Brasil não foram iniciadas pelo Itamaraty, mas por outras instâncias do governo.

Formuladores de política externa enfrentam, então, um desafio duplo: convencer o Congresso e a presidente de que a política externa importa, e que o Itamaraty é o melhor lugar para projetá-la e implementá-la. 

 Enquanto poucos recursos estiverem disponíveis e a presidente lutando por sua sobrevivência, o Itamaraty deve praticar o que Matias Spektor chamou, em uma frase feliz, de “ginástica em uma cela de prisão” e aprender a operar abaixo do radar.

7. Desenvolver expertise de ponta em segurança cibernética

Novas tecnologias de comunicação corroem hierarquias, desmoronam tempo e distância, e empoderam redes. Isso terá um impacto maciço nas relações internacionais, e a segurança cibernética será um elemento chave na elaboração da política externa nas próximas décadas.

Questões que definem a segurança cibernética atualmente – como responder a incidentes, o problema de atribuição de ataques, autoridades investigativas e legais que se sobrepõem, parcerias público-privadas, e a necessidade de cooperação internacional – são muito discutidas em Washington e Pequim, mas o Brasil ainda não possui conhecimento para desempenhar um papel chave no debate global sobre as regras e normas da segurança cibernética.

O mesmo vale para acadêmicos de relações internacionais em universidades brasileiras e think tanks, que continuam largamente despreparados para ponderar sobre o assunto.

8. Preparar-se para um mundo mais centrado na Ásia

A China pode crescer um pouco mais devagar do que antes, mas poucos contestariam seriamente que estamos testemunhando um momento de transição. A economia mundial não irá retornar à distribuição de poderes do final do século XX, e o peso da Ásia se fará sentir em todos os aspectos dos assuntos globais.

A embaixada do Brasil em Pequim cresceu nos últimos anos, mas o número de diplomatas em outros locais chave como Tóquio, Deli, Manila e Hanói é muito pequeno. Afinal, é nestes países que a dinâmica mais importante do século XXI (um choque de interesses crescente entre Washington e Pequim) acontecerá.

O Ministério das Relações Exteriores não pode sozinho abraçar um mundo mais centrado na Ásia – universidades brasileiras, jornais e empresas são elementos fundamentais nessa reorientação.

Ser um membro-fundador do Banco Asiático para Investimento em Infraestrutura (Asian Infrastructure Investiment Bank, em inglês), liderado pela China, e estar ativamente envolvido no agrupamento do BRICS são passos importantes na direção correta.

9. Continuar a trabalhar para reformar instituições internacionais

Por que o Brasil deveria se importar em reformar o Conselho de Segurança da ONU em tempos de crise como estes? A resposta é simples: porque responsabilidades globais não são decorrentes de taxas flutuantes de crescimento doméstico. 

Há pouca utilidade para uma potência emergente que se engaja construtivamente em problemas globais em momentos bons, apenas para desaparecer quando a economia não vai tão bem.

É por esta razão que a retração diplomática do Brasil no governo Dilma Rousseff tem sido tão prejudicial: o momento no qual um futuro presidente irá adotar um papel internacional mais visível fará observadores internacionais questionarem se esse é apenas mais um golpe de sorte.

A lógica por meio da qual instituições internacionais como o Banco Mundial, o FMI e o Conselho de Segurança precisam de reformas continua mais válida do que nunca, e a crise do Brasil não altera a tendência geral de que estamos rumo à multipolaridade.

10. Usar as Olimpíadas promover a imagem desgastada do Brasil no mundo

Os Jogos Olímpicos oferecem uma oportunidade única para fortalecer a imagem do Brasil ao redor do mundo. Essas atividades são, geralmente, coordenadas pelos ministérios do Turismo ou dos Esportes. Entretanto, sem uma estratégia clara desenvolvida pelo Ministério das Relações Exteriores, elas devem falhar.

As Olimpíadas de 2012 em Londres deveriam servir de exemplo. Personalidades esportivas britânicas relevantes e outras celebridades viajaram pelo mundo para promover o evento, e embaixadas ao redor do mundo adotaram uma estratégia de comunicação midiática coerente e sofisticada.

Organizado em uma época de pessimismo no Reino Unido (reconhecidamente, não comparável ao atual mal estar do Brasil), o evento revigorou a imagem do país no mundo, algo que o Brasil precisa desesperadamente para atrair turistas e investidores.

fonte: Post Western World


sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Portugal quer liberdade de circulação e residência entre países lusófonos

Portugal quer liberdade de circulação e residência entre países lusófonos. 

Brasil enxerga ideia com cautela




BBC Brasil
18 dez 2015

O novo governo português quer derrubar a necessidade de visto e estabelecer a liberdade de circulação e residência para os cidadãos dos Estados-membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). 

Uma iniciativa que o Brasil, por enquanto, trata com cautela e fora de suas prioridades momentâneas.

O projeto é detalhado oficialmente no programa de governo apresentado pelo Partido Socialista luso, que assumiu o poder em novembro, e já foi defendido em diversas ocasiões pelo recém-empossado primeiro-ministro António Costa.

"A autorização de residência garante a liberdade de circulação. É preciso eliminar barreiras, que tantas vezes têm dificultado não só o contato das famílias, como o desenvolvimento econômico e o contato cultural (entre esses países)", argumenta Costa.

A proposta de derrubar as fronteiras no bloco lusófono também ganha força no setor empresarial. 

Em um fórum que acontece nesta quinta e sexta-feira, em Braga (Norte de Portugal), a Confederação Empresarial da CPLP (CE-CPLP) garantiu que reforçará o coro pela liberdade de circulação de pessoas, bens e capitais entre os Estados-membros.

"Precisamos de mobilidade, da livre circulação. Estamos fazendo um lobby persistente com os políticos para que isso aconteça. Nossa proposta é muito simples: abram as vias que os empresários farão o resto", promete o moçambicano Salimo Abdula, presidente da CE-CPLP.

Itamaraty

Coordenador-geral para a CPLP do Ministério das Relações Exteriores brasileiro, o diplomata Paulo André Moraes de Lima explica à BBC Brasil que o país não enxerga o bloco lusófono como uma nova versão da União Europeia ou do Mercosul, e sim com funções mais próximas a organismos como a Organização dos Estados Americanos (OEA) ou a Secretaria-Geral Ibero-americana (Segib).


"Nós entendemos a CPLP como um importante foro de concertação política e diplomática, bem como uma plataforma de cooperação e de difusão e promoção da língua portuguesa, nos moldes de uma organização multilateral convencional, e não como um organismo com vocação supranacional", argumenta Lima, que também não se mostra entusiasmado com as promessas do empresariado lusófono.

"O mesmo raciocínio se aplica para a circulação de bens e serviços. Nesse aspecto, nossas prioridades estão claramente no foro da OMC (Organização Mundial do Comércio) e nas negociações no âmbito do Mercosul, intra e extra-bloco", explica à BBC Brasil o diplomata.

Apesar do posicionamento contido sobre as propostas portuguesas, o alto funcionário do Itamaraty para a CPLP confirma que a circulação de pessoas tem sido um tema recorrente na agenda do bloco e admite que "tecnicamente não há nenhum impedimento para que o assunto avance".

"Não exigiria nenhuma mudança na atual estrutura institucional da CPLP. Seria um instrumento como o Acordo Ortográfico ou a recente Convenção Multilateral sobre Segurança Social na CPLP, assinada em Díli (Timor-Leste) e ainda em processo de ratificação pelos Estados", afirma o diplomata à BBC Brasil.

'Carta de Cidadão Lusófono'

Em seu projeto de livre circulação, o governo português defende a criação de uma "Carta de Cidadão Lusófono", que serviria para o "reconhecimento a todos os cidadãos de vários direitos no espaço lusófono, tais como a liberdade de deslocação e de fixação de residência, o reconhecimento das qualificações acadêmicas e profissionais, o exercício de direitos políticos e a portabilidade dos direitos sociais".

A ideia do governo português é adotar algo semelhante ao Espaço Schengen da UE, que permite a livre circulação de pessoas entre os países signatários – como é o caso de Portugal – e o reconhecimento automático dos direitos desses cidadãos.

O problema é que o modelo que serviu de inspiração poderia vir a ser justamente um dos principais empecilhos para que se colocasse em prática a iniciativa de Lisboa de adotar a livre circulação entre os países lusófonos.

"Sou a favor do livre trânsito, mas não me parece ser uma medida possível no atual contexto europeu, levando em conta que Portugal não está considerando sair da UE nem do Espaço Schengen. Se esta livre circulação acontecesse, o resto da Europa acabaria por reinstaurar as fronteiras com Portugal", opina à BBC Brasil a pesquisadora portuguesa Beatriz Padilla, especialista em políticas de migração.

A visão pessimista, no entanto, é rejeitada por António Costa, que garante que Portugal tem o direito de negociar tratados de liberdade de residência com quaisquer países sem precisar da benção do bloco europeu.

"Portugal tem toda a liberdade para negociar com os demais países da CPLP tratados de liberdade de residência e o deve fazer. A exigência de vistos de entrada na UE é no âmbito europeu. Outra coisa diferente, é o direito de residência em Portugal, que podemos garantir a todos, na base da reciprocidade, de forma a também garantir a todos os portugueses direito de residência nos Estados da CPLP. E com a autorização de residência, os vistos estão dispensados", argumenta o primeiro-ministro luso.

Segundo a diretora da licenciatura em Relações Internacionais da Universidade do Minho, Sandra Dias Fernandes, a coexistência entre a livre circulação com a União Europeia e com a CPLP é possível, mas teria de ser tratada antes em Bruxelas.

"Portugal pode alcançar o que o governo defende, mas não é algo tão simples ou automático. Um acordo de livre trânsito com os países lusófonos teria de ser explicado antes ao bloco europeu para poder avançar", analisa Fernandes à BBC Brasil.

Crise demográfica

O empenho de Portugal para derrubar as barreiras de circulação e residência entre as nações lusófonas coincide com uma das mais graves crises demográficas experimentadas pelo país europeu, que precisa de imigrantes para suprir a carência deixada pelos portugueses que foram embora no passado recente.

"A debilidade da economia e a crise dos últimos anos criou um desajustamento que só pode ser acertado com a imigração. Enquanto jovens qualificados deixam o país em busca de mercados mais competitivos, trabalhadores pouco qualificados preferem ficar parados e receber o auxílio-desemprego a ter um emprego braçal", comenta à BBC Brasil o economista português Horácio Piriquito.

"Essa realidade criou uma anomalia em que temos alto índice de desemprego ao mesmo tempo em que falta mão de obra na agricultura e na indústria, por exemplo. E só com a chegada de imigrantes o mercado poderá se equilibrar e a demografia ser reajustada", afirma.


Além de Brasil e Portugal, participam da CPLP Angola, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique e Timor-Leste. 

Juntos, os países do bloco lusófono reúnem mais de 250 milhões de pessoas.

No discurso de António Costa, no entanto, mais importante do que um estímulo à imigração, a livre circulação entre os membros do bloco servirá para "edificar o pilar da cidadania" entre cidadãos de países com uma história tão interligada com a de Portugal.

"Depois de termos bons resultados do ponto de vista políticos e econômicos na CPLP, devemos investir naquilo que é a sua grande força, a relação humana única entre os nossos povos, que deve se traduzir neste pilar de cidadania", defende o primeiro-ministro luso, enquanto espera que o Brasil também passe a enxergar a livre circulação dentro do bloco como uma questão prioritária.

fonte: BBC Brasil

sábado, 5 de dezembro de 2015

EnciCOPedia

Em tempos de COP21, reproduzo material bem legal e bem humorado do Instituto Arapyaú com principais termos relacionados e sobre história e estórias das COPs.








Acordo de Copenhague (“Copenhagen Accord”)
declaração política produzida em dezembro de 2009 nos estertores da COP-15, na capital da Dinamarca, que entrou em vigor em 2010. Estabeleceu que os países ricos, pobres e emergentes adotariam cada um uma meta voluntária de corte de emissões até 2020. Por um lado, o acordo foi um fracasso, porque não era de cumprimento obrigatório. Nem sequer foi adotado oficialmente pela conferência. Por outro, inovou ao prever como objetivo limitar o aquecimento a 2o C, e talvez a 1,5o C caso uma revisão científica assim indicasse, e ao prever a criação de um fundo global para financiar o combate ao aquecimento global nos países em desenvolvimento.

Adicionalidade
medida do quanto de esforço real existe numa determinada proposta de mitigação. Para poder gerar crédito de carbono, um projeto precisa ser adicional, ou seja, reduzir mais emissões do que reduziria de qualquer jeito se não recebesse o recurso da compensação, ou remover mais carbono da atmosfera do que ocorreria na ausência da iniciativa. Se a melhoria gradual dos processos de produção de uma fábrica, digamos, já estava planejada e reduziria, digamos, X toneladas ao final do período, o dono da fábrica não poderá clamar créditos de carbono pelas medidas já em curso. Da mesma forma, há uma discussão sobre a adicionalidade de alguns projetos de Redd+, já que proteger florestas que não estão sob risco de desmatamento poderia criar incentivos perversos às emissões nos países compradores dos créditos (ver MDL, créditos de carbono).

ADP
sigla para “Ad-hoc working group on the Durban Platform for Enhanced Action”. É a ‘coisa’ mais importante da convenção neste momento. 

O nome comprido indica o grupo (formado por todos os países) que está negociando o futuro acordo do clima, a ser concluído em 2015 em Paris com metas de redução de emissões para todas as nações do planeta, ricas e pobres. É sobre o ADP que se debruçará a COP-20, em Lima, cuja missão é produzir um esboço do texto que será negociado (e, espera-se, adotado) em Paris. Ele deverá estabelecer as regras para o combate mundial aos gases de efeito estufa após 2020, quando expiram os fracos compromissos voluntários de corte de emissões do Acordo de Copenhague, adotados em 2010. 

O objetivo final do ADP é evitar que o aquecimento da Terra no fim do século ultrapasse os 2oC. Para que isso aconteça, será preciso aumentar a ambição das metas de redução a serem adotadas pelos países (daí a “enhanced action”, ou “ação reforçada” da qual fala o nome do grupo). Neste sentido, este grupo de trabalho também explorando meios de aumentar a ambição dos compromissos colocados na mesa até 2020, para fechar a o chamado “gap” entre aquilo que recomenda a ciência (IPCC) e somatória dos esforços atuais de mitigação, que é de 8 bilhões a 12 bilhões de toneladas de CO2eq em 2020. 

Ailac
sigla em espanhol para a Aliança Independente da América Latina e Caribe, criada em Doha, Catar, durante a COP-18, em 2012. É formada por Chile, Colômbia, Costa Rica, Guatemala, Panamá e Peru, e considerada uma “terceira via” latino-americana, formada por países que têm políticas sobre mitigação, adaptação e investimentos em fontes renováveis de energia, e que tenta se interpor a dicotômica divisão norte-sul, defendendo, por vezes, que todos os países aumentem a sua ambição climática.

Alba
sigla em espanhol para Aliança Bolivariana para as Américas. É o grupo formado por países como Venezuela, Equador, Bolívia, Cuba e Nicarágua. São anticapitalistas e defendem propostas aparentemente (mas só aparentemente) exóticas, como os direitos da Mãe Terra. Têm um papel importante na discussão sobre perdas e danos. Barulhentos, podem travar discussões e até impedir acordos. Foi a oposição da Alba que impediu que o Acordo de Copenhague fosse oficialmente adotado pela convenção.

Alto nível
é o segmento final de uma COP, geralmente seus três últimos dias. É quando os ministros, em geral do Meio Ambiente e/ou de Relações Exteriores, chegam para bater o martelo nos textos negociados pelos diplomatas. Na maioria das vezes, os próprios ministros se envolvem em negociações. Isso porque eles têm mais autonomia para tomar decisões políticas do que os negociadores. Em algumas conferências, como a de Copenhague, o segmento de alto nível tem a presença de chefes de Estado.

Anexo 1
definido pela Convenção do Clima, é a lista de países industrializados, que teriam metas de mitigação a cumprir obrigatoriamente pelo Protocolo de Kyoto. Na lista estão os países do chamado Primeiro Mundo e as economias de transição, do Leste Europeu.

BAP
sigla para “Bali Action Plan”, ou Plano de Ação de Bali. Foi o acordo firmado em 2007, na COP-13, na Indonésia, que permitiu o avanço do novo tratado do clima de modo a envolver os Estados Unidos, que haviam rejeitado Kyoto, e os países em desenvolvimento, que não tinham metas obrigatórias por Kyoto. O BAP dividiu a negociação em duas: de um lado, os países do Anexo 1 aprofundariam as metas com as quais já se haviam comprometido no Protocolo de Kyoto; de outro, os países em desenvolvimento e os EUA adotariam metas voluntárias, mas passíveis de verificação externa. Esses dois “trilhos” deveriam convergir para um acordo em 2009 que levasse adiante o combate ao efeito estufa até 2020 (ver MRV).

Basic
bloco constituído por Brasil, África do Sul, Índia e China. Não é um grupo formal de negociação, mas representa a voz e os interesses das grandes economias emergentes. O bloco fez sua estreia na COP-15, em Copenhague, negociando com EUA e União Europeia o texto final do polêmico Acordo de Copenhague.

BaU
é o “Business as Usual”, ou cenário em que um país projeta sua economia como se ele nada fizesse para reduzir emissões, ignorando o que acontece com o clima. Em tese, é o cenário hipotético de inação. Países em desenvolvimento têm usado cenários “BaU” para dizer “vejam, não tenho compromisso, mas estou fazendo mais do que deveria, do contrário minhas emissões iriam subir muito mais do que com as políticas que e medidas que adotei.“ 

O problema é que o cenário BaU às vezes tem projeções mais ou menos fictícias. Por exemplo, o Brasil, quando definiu suas metas voluntárias de redução de emissões para anunciá-las ao mundo em 2009, em Copenhague, construiu um cenário BaU para energia que considerava que, a partir de 2009, toda nova energia viria de fontes fosseis. 

Aí seus investimentos já previstos nestas fontes, inclusive a hidrelétrica de Belo Monte, que já estava em licenciamento – que deveriam ser o cenário BaU de fato – formaram o que o governo chamou de cenário de mitigação. Nesse cenário de desvio da trajetória BaU, o Brasil quase dobra as emissões de energia em dez anos, mas diz que está mitigando.

CBDR(RC)
sigla em inglês para “responsabilidades comuns, porém diferenciadas e respectivas capacidades”. É uma das cláusulas pétreas da Convenção do Clima e também um dos maiores geradores de impasse nas negociações. O CBDR integra os chamados Princípios do Rio, acordados da Eco-92. Sua lógica é a seguinte: os países hoje desenvolvidos poluíram o planeta para atingir seu grau de industrialização. No limite, são os principais responsáveis pelo aquecimento global observado hoje. Portanto, embora a responsabilidade de limpar a bagunça seja de todos, a contribuição dos ricos deve ser proporcionalmente maior, bem como sua liderança na solução do processo e no financiamento ao desenvolvimento limpo dos países pobres.

O diabo mora na interpretação do princípio. Alguns países em desenvolvimento que estão se tornando grandes poluidores desde 1992 têm usado o CBDR como desculpa para não cortar emissões, exigindo ao mesmo tempo recursos dos países ricos – nesta hora, eles também esquecem das duas últimas letrinhas da sigla – RC – que indica que o esforço de cada país depende de sua responsabilidade, mas, também, de sua capacidade de ação. 

Por outro lado, o Senado americano nunca aceitou a diferenciação que o princípio cria entre os EUA e a China, sua principal concorrente comercial. Nos últimos anos, o CBDR tem sido cada vez mais relativizado. Hoje ele costuma ser expresso como “evolving common but differentiated responsabilities and respective capabilities”, o que implica que o princípio segue firme, mas ganhou tons de cinza: os países emergentes, como o Brasil, a Índia e a China, têm capacidade cada vez maior de reduzir emissões e devem contribuir mais do que os países muito pobres (os chamados LDCs, ou países menos desenvolvidos) para a solução do problema (ver KP e LDCs).

CMP
sigla em inglês para “Meeting of the Parties”, ou encontro das partes. É um encontro dos países membros de um acordo que já foi assinado – no caso, o Protocolo de Kyoto – para revisar o progresso feito em sua implementação e debater novos avanços. A conferência de Lima será a CMP 10, ou décima reunião desde a implementação de Kyoto. É uma das reuniões simultâneas que ocorrem durante a COP.

Colchetes (“brackets”)
palavras, frases, parágrafos ou capítulos que aparecem entre colchetes num texto diplomático são aqueles sobre os quais não houve acordo entre as partes. A negociação visa justamente “limpar” o texto de colchetes, que podem ser aparentemente bizantinos, como um tempo verbal ou uma palavra aparentemente sem importância. Diplomatas são capazes de virar noites discutindo um colchete. Os colchetes são muitas vezes usados como tática de negociação. “Colchetar” um texto inteiro em um assunto pode representar interesse contrariado em outro assunto.

Comércio de emissões
ver mecanismos de flexibilização.

COP
sigla em inglês para “Conference of the Parties”. É a grande reunião anual da Convenção do Clima, que serve para debater a plena implementação da convenção de modo a atingir seu objetivo final, o de evitar a chamada “interferência perigosa” dos seres humanos no sistema climático. A reunião de Lima é a COP-20, ou vigésima reunião anual dos países-membros da convenção.

Créditos de carbono
são direitos negociáveis de poluição, que funcionam num mecanismo de “cap and trade”. Um limite “cap” é imposto ao total de emissões de um país e distribuído pelos setores da economia. Quem cumprir mais do que a meta pode comercializar (“trade”) direitos de poluição, vendendo créditos de carbono a quem precisa reduzir, mas não pode fazê-lo na escala e prazo necessários sem perder competitividade. Num exemplo hipotético, uma fábrica que precise reduzir 10 toneladas e reduza 15 poderá gerar em créditos de carbono o equivalente a 5 toneladas.

Equidade (“equity”)
tema-chave das discussão atual sobre quem paga a conta do clima e quanto pagará. Trata de justiça na distribuição de esforços de mitigação, no apoio aos países em desenvolvimento para que estes possam se desenvolver de forma mais limpa e se proteger dos efeitos das mudanças climáticas, e a quem tem direito prioritário ao acesso a este apoio.

Espaço de carbono
proposta teórica de calcular metas de emissão ao estimar quantas toneladas de CO2 podem ser emitidas pela humanidade desde o início da era industrial até o final deste século para que a chance de manter o aquecimento a menos de 2oC no fim do século seja maior, acima de 50%. Esse total deveria, em seguida, ser alocado entre os países de acordo com a quantidade de carbono que eles já emitiram, ou seja, com o espaço de carbono que eles já ocupam hoje, e segundo outros critérios, também, como capacidade.

G77+China
maior bloco de negociação das COP. O grupo foi criado em 1964 por 77 países, na primeira sessão da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), e atua também em outras frentes diplomáticas. Apesar do nome, é hoje formado por 133 países em desenvolvimento. O Brasil é integrante desse grupo altamente heterogêneo, que inclui o maior poluidor da atualidade, a China, algumas das maiores vítimas dos impactos do clima, os países africanos, alguns dos maiores produtores de petróleo, como os países árabes, e nações comprometidas com a neutralidade de carbono, como a Costa Rica. Como precisam falar por todo o mundo em desenvolvimento, também tendem a posições mais conservadoras.

GCF
sigla para Green Climate Fund, ou Fundo Verde do Clima. Surgiu como uma promessa em 2009, no Acordo de Copenhague, e foi criado em 2010 na conferência de Cancún. É um fundo que funciona com dinheiro dos países do Anexo 1 para financiar ações de mitigação e adaptação às mudanças do clima nos países em desenvolvimento. A promessa é que ele chegue a US$ 100 bilhões em 2020. O GCF é sediado na Coreia do Sul. O GFC tem um “irmão”, o Fundo de Adaptação (Adaptation Fund) do Protocolo de Kyoto. Somente em novembro de 2014 é que esse fundo começou a receber algum recurso significativo (US$ 9 bilhões), mas muito longe das promessas feitas quando sugerida a sua criação.

Grupo de contato, ou “contact group”
dentro da sistemática de negociação da ONU, na qual é preciso obter consenso entre 193 países, é impossível discutir com agilidade todos os temas com todo mundo na mesa. O presidente (“chair”) da conferência divide os países em grupos menores, de 20 ou 30 membros, e dá a cada um a tarefa de produzir uma solução aceitável para um determinado tema. Nas COPs de clima, há um grupo de contato para discutir financiamento, outro para capacitação, outro para tecnologia, outro para mitigação e assim por diante (ver “colchetes”).

Implementação conjunta
ver mecanismos de flexibilização.

INDC
sigla em inglês para “Intended Nationally Determined Contributions”, ou contribuições nacionalmente determinadas propostas. São as metas que cada país apresentará durante o ano de 2015 para seu corte de emissões até 2030. As INDC foram baseadas nas Namas de Copenhague e representam uma mudança de abordagem no jeito de propor metas: em vez de uma meta geral, determinada pela COP, como foi em Kyoto (“top-down”), agora as metas serão oferecidas pelos países (“bottom-up”) e somadas para ver se chegam na escala necessária para mitigar o aquecimento global. 

O nível de ambição das INDC determinará se o planeta terá chance de manter o aquecimento em 2oC ou não (ver Nama). O I das NDCs existe para que se dê margem para fazer a soma, ver quanto falta para pagar a conta e quem irá colocar mais na mesa – a partir dos critérios de responsabilidade, capacidade e equidade. O Brasil, curiosamente, não quer que a sua NDC venha precedida do I. Quando colocar o número na mesa, não quer dar margem para discutir se é a parte que lhe cabe na conta ou não. Esta posição vem sendo questionada por outros países e por organizações da sociedade civil.

Juscanz
grupo informal de negociação formado por Japão, EUA, Canadá, Austrália e Nova Zelândia. Por motivos diferentes, esses países, todos industrializados, sempre se opuseram a compromissos ambiciosos de corte de emissões. O Japão sempre foi muito eficiente, portanto reduzir emissões lá custa muito caro; os EUA são viciados em petróleo; a Austrália é o maior exportador do mundo de carvão, e assim por diante. O bloco fez a maior oposição ao Protocolo de Kyoto e a saída de EUA e Austrália quase impediram sua ratificação. O bloco rachou quando a Austrália voltou a Kyoto e a Nova Zelândia decidiu virar um país neutro em carbono, mas ainda vota junto sempre que o nível de ambição ameaça crescer demais. O Juscanz integra um bloco formal chamado Umbrella Group.

KP
sigla para Kyoto Protocol, ou Protocolo de Kyoto. Foi o primeiro acordo internacional do clima, assinado em 1997, que entrou em vigor em 2005. Kyoto previa que os países industrializados (Anexo 1) precisavam cortar, no total, 5,2% de suas emissões de gases-estufa até 2012 em relação aos níveis de 1990. O acordo também criou um marco regulatório internacional para o comércio de emissões e um mercado de carbono que existe ainda hoje. 

Do ponto de vista do clima, porém, Kyoto foi um fracasso, já que o maior emissor do Anexo 1, os EUA, rejeitou-o, assim como o Canadá. O argumento central do Senado americano era a diferenciação que o protocolo criava entre o país e os grandes emissores de fora do Anexo 1, como China e Índia, que não tinham meta obrigatória de redução por Kyoto. Sua meta foi cumprida por acidente, após a quebra dos países do bloco socialista, que derrubou suas emissões. A COP de Doha, em 2012, decidiu que Kyoto será prorrogado até 2020, apesar da resistência de Japão e Rússia, com promessa de revisão dos compromissos para aumentar o nível de ambição de suas metas.

LDC
grupo dos países menos desenvolvidos. Aqueles que não tem nenhuma responsabilidade pelo problema. E que mais sofrem quando o clima fica hostil, pois não têm meios para lidar com extremos climáticos, que por vezes assolam suas economias e provocam muitas mortes. Entre os LCDs estão os países africanos, os do Caribe e algumas economias da Ásia.

Legalmente vinculante (“legally binding”)
diz-se que um acordo é “legally binding” quando ele tem peso de lei internacional e países que não o cumprirem estão sujeitos a sanções de algum tipo. O Protocolo de Kyoto é “legally binding”; o Acordo de Copenhague não é.

LULUCF
sigla para “Land Use, Land Use Change, and Forestry”, ou uso da terra, mudanças no uso da terra e florestas. Na linguagem do Protocolo de Kyoto, são as emissões e remoções de carbono do ar resultantes do desmatamento e do sequestro de carbono por florestas que crescem, respectivamente. Representam cerca de 10% de todas as emissões do planeta e, em países como Brasil, Congo e Indonésia, respondem pela fatia do leão das emissões nacionais. No acordo de Kyoto, o plantio de florestas (reflorestamento) foi reconhecido como um mecanismo de remoção de CO2 da atmosfera e, portanto, pode gerar créditos de carbono (ver créditos de carbono). Mas a manutenção de florestas em pé e a redução do desmatamento ficaram de fora, e só ganhariam tratamento específico no novo acordo (ver Redd+).

MDL
ver mecanismos de flexibilização.

Mecanismos de flexibilização
figura criada pelo Protocolo de Kyoto para facilitar o cumprimento de metas pelos países do Anexo 1. A lógica é a seguinte: nem sempre um país conseguirá reduzir tudo o que precisa e se manter competitivo mesmo assim. Outros países, porém, têm capacidade de reduzir além da conta. Como do ponto de vista da atmosfera o que importa é a quantidade de CO2, e não de onde ele veio, os arquitetos de Kyoto arrumaram uma maneira de acomodar os interesses de todos. 

Há três mecanismos de flexibilização: o comércio de emissões, praticado entre países do Anexo 1 (ver “créditos de carbono”) ; o chamado Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), ou Clean Development Mechanism (CDM), em inglês; e a implementação conjunta. 

O MDL é o mais conhecido de todos. Consiste em créditos de carbono gerados por países de fora do Anexo 1, que não têm metas obrigatórias, mas que devem contar com recursos dos países ricos para que não precisem poluir como estes poluíram para se desenvolver. A implementação de novas tecnologias de geração de energia ou de manejo de lixo, por exemplo, que produzam comprovadamente redução de emissões, podem gerar créditos de MDL a serem vendidos aos países com metas a cumprir por Kyoto. 

O Brasil, a Índia e a China são os maiores detentores desse mercado. A implementação conjunta consiste de projetos semelhantes aos de MDL, mas implementados entre países do Anexo 1 (por exemplo, entre as economias desenvolvidas e as de transição).

Meios de implementação (“means of implementation”)
dinheiro (ver GCF).

MRV
sigla em inglês para “measurable, reportable and verifiable”, ou mensuráveis, reportáveis e verificáveis. Expressão criada no Plano de Ação de Bali para se referir às metas que seriam adotadas pelos países emergentes e pelos EUA no acordo do clima pós-2012. O MRV é um exemplo de engenhosidade diplomática, pois amarrava os países que não tinham obrigações por Kyoto a fazer um esforço equivalente ao das partes de Kyoto. Afinal, mesmo sendo voluntários, esses compromissos precisariam ser mensuráveis, reportáveis e verificáveis pela comunidade internacional (ver BAP).

Nama
“Nationally Appropriate Mitigation Actions”, ou ações de mitigação nacionalmente apropriadas. É o nome dado às metas voluntárias de corte de emissões propostas pelos países no Acordo de Copenhague, que deverão ser implementadas até 2020. A Nama do Brasil foi inscrita na Política Nacional sobre Mudança do Clima, lei de 2009 que determina que o país deverá reduzir suas emissões em 36,1% a 38,9% em relação ao que emitiria em 2020 se nada fosse feito.

NAP
sigla para National Adaptation Plans, ou Planos Nacionais de Adaptação. Cada país membro da convenção deverá adotar compromissos nacionais de adaptação às mudanças climáticas que já são inevitáveis e integrá-las no seu planejamento.

Perdas e danos (“loss and damage”)
reconhecimento dos membros da convenção de que alguns países sofrem desproporcionalmente mais os efeitos da mudança do clima, e merecem compensação financeira dos países ricos para mitigar as perdas e danos decorrentes, por exemplo, de supertempestades como o tufão Haiyan, que atingiu as Filipinas em 2013. Na COP-19, em Varsóvia, Polônia, foi aprovado o chamado Mecanismo de Varsóvia sobre Perdas e Danos, que ainda precisa ser regulamentado – por exemplo, não se sabe quem fará os pagamentos, nem quando.

Plataforma de Durban (“Durban Platform”)
foi o texto obtido em 2011 na África do Sul que definiu que um novo acordo global do clima teria de ser negociado em 2015 para entrar em vigor em 2020. Esse acordo – “um protocolo, outro instrumento legal ou um resultado acordado com força legal”, na linguagem do documento de Durban – teria de envolver compromissos de corte de emissão tanto para países desenvolvidos quanto para países em desenvolvimento. 

A plataforma adiou para 2020 o combate sério à mudança climática, mas teve o mérito de eliminar finalmente a diferença entre os países ricos e os pobres que impedia, desde os anos 1990, que os maiores poluidores do planeta, os EUA, se unissem ao acordo global (ver “Acordo de Copenhague”).

Promessas (“pledges”)
quantidade de CO2 que um país se propõe a cortar de suas emissões em relação a um ano-base. O ano-base do Protocolo de Kyoto é 1990.

QELROs
“Quantified Emission Limitation and Reduction Objectives”, ou objetivos quantificados de redução e limitação de emissões. É a quantidade de carbono que um país pode emitir todo ano de forma a cumprir a meta a que se propôs num determinado período de compromisso, em relação a um ano-base. Os QELROs indicam a trajetória de emissões de um país.

Ratificação
nome dado ao mecanismo de aprovação doméstica, em geral pelos Parlamentos, de um acordo internacional para que ele passe a ter peso de lei. Geralmente, para que entre em vigor, um instrumento legal precisa ter um mínimo de ratificações. No caso do Protocolo de Kyoto, eram necessárias pelo menos 55 ratificações, que somassem 55% das emissões do Anexo 1. A ratificação é feita pelos Parlamentos nacionais. O Senado dos Estados Unidos dificilmente ratifica acordos internacionais que possam exercer algum poder de regulação sobre a economia doméstica, daí a dificuldade de os EUA aceitarem Kyoto (o protocolo foi rejeitado por 95 votos a zero antes mesmo de ser adotado pela conferência do clima).

Redd+
sigla para “Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal”. O sinal de mais (“plus”) acrescenta: conservação de estoques de carbono, manejo sustentável de florestas e ampliação dos estoques de carbono de florestas”. É a maneira como o desmatamento está tratado no texto do regime futuro do clima, prevendo compensações financeiras para países que, como o Brasil, conseguirem reduzir suas emissões totais cortando a taxa de desmatamento. 

As ações de Redd+ são consideradas a maneira mais barata e rápida de reduzir emissões de carbono, razão pela qual a negociação do texto desse mecanismo está bem mais avançada do que a do ADP. Apesar de não haver ainda um mercado formal de emissões florestais, ações de Redd+ já são implementadas hoje mundo afora. Um exemplo é o Fundo Amazônia do Brasil, que funciona com verba de doações internacionais.

Responsabilidade histórica (“Brazilian Proposal”)
é um documento apresentado pelo Brasil na negociação de Kyoto, na década de 1990, que dividia os esforços de mitigação de acordo com a responsabilidade histórica de cada país no aquecimento observado atualmente. As emissões históricas de cada um foram convertidas em graus Celsius. 

Pela lógica da proposta brasileira, o peso recairia todo sobre os países industrializados, já que mesmo a China, que hoje é o maior poluidor do planeta, só começou a fazê-lo recentemente e, portanto, ainda não impacta muito no aquecimento atual. Vários estudos recentes, porém, têm sugerido ao Brasil que a proposta pode ser um tiro no pé: um deles mostra que, graças ao desmatamento nas últimas quatro décadas, o país é o quarto maios responsável pelo aquecimento observado hoje.

SBI
sigla para “Subsidiary Body for Implementation”, ou corpo subsidiário de implementação. É um dos dois corpos técnicos permanentes da Convenção do Clima da ONU, e tem como papel principal revisar o cumprimento das promessas que os países fazem de corte de emissões. É uma das reuniões simultâneas que ocorrem durante a COP.

SBSTA
sigla para “Subsidiary Body for Scientific and Technical Analysis”, ou corpo subsidiário de análise científica e técnica. É um dos dois corpos técnicos permanentes da Convenção do Clima da ONU, que tem o papel de traduzir a informação científica – dada, por exemplo, pelos relatórios do IPCC – em sugestões de políticas que possam ser implementadas pelos países nas COPs. O SBSTA trabalha em temas como mitigação, financiamento, uso da terra e florestas e nas diretrizes para a revisão dos inventários nacionais de gases de efeito estufa. É uma das reuniões simultâneas que ocorrem durante a COP.

SIDS
“Small Island Developing States”, ou pequenos países insulares, ou países-ilhas, como Tuvalu, Vanuatu, Tonga e Micronésia. São as principais vítimas do aquecimento global e foram os primeiros a pressionar por um acordo global de combate às emissões de carbono. Brigam pela ambição máxima no acordo, de forma a limitar o aquecimento a 1,5o C. Dizem, não sem alguma razão, que os 2o C com os quais o mundo já se comprometeu são uma temperatura elevada demais, já que produzirão um aumento do nível do mar até o final do século que poderá tornar algumas ilhas inabitáveis. Nas COPs, são chamados de AOSIS, que vem de Aliança dos Pequenos Países Insulares.

UE
União Europeia. É ao mesmo tempo uma parte (conta como um país, com direito a voto, inclusive) e um bloco de negociação. Os países do bloco têm liderado as negociações dos acordos do clima. Pressionam por maior nível de ambição nas metas de corte de emissões e por mecanismos legalmente vinculantes. São, na maioria das vezes, os “mocinhos” da negociação – não porque sejam bonzinhos, mas porque possuem poucas reservas de hidrocarbonetos, muitas indústrias de tecnologia energética limpa que eles querem proteger e também são vulneráveis às mudanças climáticas, especialmente seu setor agrícola, altamente subsidiado.

Umbrella Group
coalizão de negociação composta por alguns países industrializados fora da União Europeia. Além do Juscanz, integram o Grupo Umbrella a Rússia, a Ucrânia, o Cazaquistão e a Noruega. Formada após a conferência de Kyoto, a coalizão tem geralmente posições mais conservadoras sobre mitigação (ver Juscanz).

UNFCCC
sigla em inglês para “United Nations Framework Convention on Climate Change”, ou Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, ou simplesmente Convenção do Clima da ONU. Assinada em 1992 no Rio de Janeiro, entrou em vigor em 1994. Tem o objetivo final de evitar a “interferência perigosa” dos seres humanos no sistema climático, mas seu texto não previu os meios de fazer isso. Portanto, precisa ser regulamentada por acordos ou protocolos internacionais, como o Protocolo de Kyoto. Hoje a convenção tem 195 países-membros, Nem todos eles são partes do acordo de Kyoto.

Uso da terra
ver LULUCF.

Vazamento (“leakage”)
emissões que acontecem quando um projeto de mitigação é implementado em um lugar e as forças econômicas responsáveis pelas emissões neste lugar migram para outro, emitindo a mesma quantidade de carbono. Vazamentos são preocupações constantes em projetos de LULUCF e Redd+, e foram uma das razões pelas quais a redução de desmatamento ficou de fora do Protocolo de Kyoto. Havia o temor de que, ao cercar uma área de floresta sob risco para evitar que ela fosse derrubada, os desmatadores (e as emissões) simplesmente migrassem para outro lugar.

Vazamento (“leak”)
ato de testar ou matar uma proposta por meio da imprensa, vazando estrategicamente um documento confidencial de negociação. Acontece com frequência quase cotidiana nas COPs. O caso mais ilustre é o do texto negociado pela presidência dinamarquesa da COP-15 com alguns países desenvolvidos, sem consultar os outros, que foi vazado ao jornal The Guardian e causou uma crise na conferência de Copenhague, sepultando a liderança política dos dinamarqueses.

“Cap and trade”
ver créditos de carbono.

“Hot air” (“surplus AAUs”)
expressão que significa tanto “ar quente” quanto “mentira”, em inglês. É o nome dado à redução involuntária de emissões praticada por Rússia Ucrânia após a quebra do bloco socialista, no começo da década de 1990. A crise econômica fez as emissões de CO2 caírem nas ex-repúblicas soviéticas muito mais do que a meta assumida por esses países em Kyoto. 

Por Kyoto, cada país recebeu uma quantidade determinada de emissões autorizadas, ou AAUs (“assigned amount units”). Por causa da crise, o total de AAUs de Rússia e Ucrânia é enorme: 5,8 bilhões e 2,6 bilhões de toneadas de CO2, respectivamente. Desde então, russos e ucranianos tentam abater essa “sobra” da própria meta no futuro acordo do clima ou no segundo período de compromisso de Kyoto. A ameaça do transporte para um novo acordo de “hot air”, chamado “carry over of surplus AAUs” volta de tempos em tempos nas COPs, toda vez que os russos se sentem prejudicados.

“Intercâmbio de ideias”
briga. Se um diplomata lhe disser que teve um “intercâmbio de ideias” com algum membro de outra delegação, pode ter certeza de que o pau comeu. A expressão é usada, com toda a sutileza da diplomacia, para designar momentos de debate acalorado, com acusações pesadas. Às vezes um intercâmbio de ideias resulta em solução para um impasse. Um dos episódios mais ilustres foi o pega entre o atual chanceler brasileiro, Luiz Figueiredo, e o ministro do Meio Ambiente do Reino Unido, Chris Huhne, na COP de Durban, quando o brasileiro sugeriu uma expressão que destravou a conferência em seus momentos finais.

“Non-paper”
literalmente, “não-documento”, em inglês. É o nome dado a textos informais de negociação, que estão na mesa para ser discutidos, mas não foram aprovados, nem adotados oficialmente. Não são traduzidos para todas as línguas oficiais da ONU, devido ao seu caráter informal. Podem, a qualquer momento, ser rejeitados por qualquer uma das partes da Convenção. O rascunho do texto que será negociado em Lima é, atualmente, um “non-paper” (ver também “vazamento”). Às vezes, um non-paper é discutido por um grupo reunido numa non-meeting, que é para deixar claro que “só estamos batendo um papo, aqui, isso não é negociação, não, viu?

“White paper”

é uma proposta qualquer. Quando um país ou grupo de países quer pôr alguma ideia em discussão, de início internamente, escreve um “white paper” e mostra-o a outras delegações para ver se a ideia tem chance de colar. Se a proposta for ousada demais, ela é vazada a ONGs, que vazam-na à imprensa. Se tiver, o “white paper” pode virar uma proposta para discussão, eventualmente convertendo-se em um “non-paper”. (ver também “vazamento”).

fonte: Instituto Arapyaú

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